domingo, 18 de dezembro de 2011

O Povo e os Nobres

No pensamento de Maquiavel, a dinâmica política decorre da oposição entre duas partes em que se divide a cidade: o povo e os nobres. É possível que ao leitor atual, formado após a Revolução Francesa, seja difícil pensar a política com uma categoria como nobreza. No entanto, vale a pena tentar.
Cronologicamente, a primeira menção a esta oposição de forças está no Capítulo IX de O Príncipe: É que em qualquer cidade se encontram estas duas forças contrárias, umas das quais provém de não desejar o povo ser dominado nem oprimido pelos grandes, e a outra de quererem os grandes dominar e oprimir o povo.
Também é estranho, pelo menos nas democracias formais ocidentais, imaginar que exista uma aristocracia que domine ou oprima o povo. Mas vamos prosseguir.
Nos Comentários sobre a Primeira Década de Tito Lívio, Livro I, Capítulo Quarto, Maquiavel reafirma que há em todos os governos duas fontes de oposição: os interesses do povo e os da classe aristocrática.
Aqui é interessante emendar uma terceira referência, que ocorre no Livro II da História de Florença, segundo a qual o povo, desejando viver sob as leis, e os poderosos querendo exercê-las, não é possível que se entendam.
Mas, no que consistiria essa rivalidade ou essa oposição?
Numa passagem do Livro Segundo dos Comentários, Maquiavel diz que a oligarquia surge quando os nobres não querem respeitar a igualdade civil
Portanto, a tensão entre povo e nobres passa pela relação com as leis. Para o povo, as leis são uma garantia de igualdade, da qual os nobres querem sempre se afastar, uma vez que a desigualdade perante a lei é parte inseparável da natureza aristocrática. A lei, por se aplicar igualmente a todos os cidadãos, protege o povo contra os abusos dos grandes, dos nobres. Mas os nobres acreditam que a lei não se lhes aplica, estão situados acima da lei. No ditado brasileiro: aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei.
Na seqüência do trecho da História de Florença transcrito acima, Maquiavel descreve a situação da cidade quando os nobres agiam sem respeitar a lei:
a cada dia algum popular era injuriado e as leis e os magistrados não bastavam para vingá-lo, porque cada nobre, com a ajuda dos parentes e dos amigos, defendia-se das forças dos Priores e do Capitão.
Veja que aqui, o estar acima da lei significa que se pode agir contra ela e não ser punido pelos poderes responsáveis pela sua aplicação.
Bem, antes que toda essa referência a um autor que escreveu quando o Brasil estava sendo “descoberto” pareça anacrônica demais, é o momento de lembrar a frase de Lula sobre Sarney durante uma das mais graves crises do Senado, envolvendo atos secretos e funcionários fantasmas:
- Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum.
Interessante como as coisas mudam pouco na política. Ainda se pode trabalhar com noções teóricas antigas de quinhentos anos ou mais já que os nobres, avessos à igualdade, ainda podem ser encontrados e estudados.
Voltaremos a isso.

domingo, 13 de novembro de 2011

Voltaire e a Prece

No verbete "Deus" do seu Dicionáro Filosófico, Voltaire compõe um diálogo entre um teólogo e um camponês a respeito da divindade. Num certo ponto, o teólogo pergunta o que o camponês pede a deus em suas orações. Responde o homem:
- Agradeço-lhe todos os bens de que desfruto e também os males de que sofro; mas não lhe peço nada: Ele sabe melhor do que nós aquilo de que carecemos, e não é só por isso: temia pedir-lhe bom tempo enquanto o meu vizinho era muito capaz de lhe estar a pedir chuva.
Interessante resposta que, porventura lida, em muito contribuiria para o aprimoramento da teologia dos "atletas de cristo", os quais pedem ao Senhor a vitória sobre o time adversário. O problema surge quando, dado o alastramento desse tipo de atleta, provavelmente atuará no outro time um outro "atleta de cristo" que lhe pedirá a mesma coisa com sinais trocados. Ora, se o atacante de cristo pede (em algumas seitas mais radicais não será pedido, mas exigência) que o Senhor lhe "honre" (palavras deles) com um gol e o goleiro do time adversário (suponhamos que seja ovelha do mesmo rebanho) pede ao mesmo Senhor que igualmente lhe "honre" com a defesa decisiva, a quem "honrará" o Senhor ??
Difícil dilema da divindade. Haverá ele de, então, verificar qual dos dois fiéis melhor se comportou durante a semana. Em caso de empate, considerando que são ambos bons fiéis, a pesquisa irá continuar por outros períodos passados, até que se apure o critério de desempate que, possivelmente, será o ingresso mais tardio no rebanho dos eleitos.
Haveria uma solução caso admitíssemos a existência de vários deuses, cada um responsável por um rebanho ou time ou partido político, enfim, se fôssemos politeístas. Teríamos, assim, um confronto entre as divindades de cada atleta para definir, ao fim, qual a mais poderosa. Mas evoluímos para a crença em uma divindade única que, por conta do nosso egoísmo, vive às voltas com pedidos contraditórios de seus crentes.
Querendo evitar que a divindade seja submetida a tal trabalho a cada rodada do Brasileirão, Voltaire sugere que os crentes não tentem ao Senhor pedindo isso ou aquilo, às vezes em prejuízo de seu vizinho. Ao invés disso, aconselha que confiem na divindade aceitando como "honra" tanto o gol quanto a defesa. Tanto a vitória quanto a derrota.
Alguém já viu um goleiro levantar a cabeça e o dedo indicador para o céu quanto toma um frango? Mas, e se o gol foi resultado da prece do atacante ?

sábado, 5 de novembro de 2011

Das Lógicas

Em matéria publicada no O Estado de S. Paulo, Eduardo Bresciani relata a existência de um projeto de lei concedendo anistia aos três deputados cassados por conta do escândalo do mensalão : José Dirceu (PT-SP), Roberto Jefferson (PTB-RJ) e Pedro Corrêa (PP-SP).
De autoria do ex-deputado Ernandes Amorim (PTB-RO) a anistia devolveria os direitos políticos aos cassados. Interessante é a justificativa do autor para propor o perdão. Segundo ele:
"Não se justifica a manutenção da pena de inelegibilidade apenas para os três parlamentares cassados em plenário, designados arbitrariamente para expiar a culpa de grande parte dos parlamentares"
Há uma aparente contradição na justificativa. Se a culpa é de grande parte dos parlamentares, diz a boa lógica que todos os culpados deveriam ser punidos, não apenas os três. Porém, na lógica da aristocracia, se a maioria dos culpados não foram punidos, que se perdoe os poucos, presumidamente culpados nas palavras de Amorim, que receberam a punição.
Assim, não há propriamente um problema lógico. A questão é somente a escolha da lógica utilizada.
Diante da repercussão na imprensa, a proposta foi retirada (por enquanto) da pauta da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, que mantém o nome apesar de presidida pelo deputado João Paulo Cunha (PT-SP), também ele réu no Supremo Tribunal Federal por conta do mensalão.

Obs.: a notícia foi acessada por meio de comentário postado no Blog do Noblat

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Cidadãos e Escravos

No capítulo sétimo do Livro Terceiro de A Política, Aristóteles define a relação entre cidadãos ao dizer que cidadão, em geral, é aquele que manda e obedece alternadamente. Essa definição da cidadania é complementada com a relação de senhor e escravo, dada nos seguintes termos do Livro Primeiro:
Alguns seres, ao nascer, se vêem destinados a obedecer; outros a mandar.
Nesses termos, a possibilidade de participação no governo da cidade, na sua vida política, é que distingue o cidadão do escravo.
O cidadão deve obedecer ao governo da cidade, legítimo, entre outras coisas, porque permite que todos aqueles dotados da cidadania tomem parte do processo político e ocupem funções no governo. O escravo, por seu turno, deve sempre obedecer, sem nunca mandar, ou seja, sem nunca assumir qualquer cargo ou responsabilidade na cidade.
Essa distinção entre senhor e escravos servirá, mais tarde, como definição de tirania como o sistema em que os indivíduos são tratados como escravos, num governo voltado sempre para os interesses do tirano.
Essa ligação entre liberdade e participação política retorna entre os séculos XII a XV na Itália, na transição entre a Idade Medieval e o Renascimento.
Em termos gerais, a liberdade nas cidades italianas era entendida em duas dimensões específicas e complementares. Numa, estar livre da interferência externa, especialmente das pretensões universalistas do Imperador e do Papa, o que significava definir livremente suas formas de governo. Noutra, escolher quem ocuparia os cargos no governo e ser elegível para eles.
Leonardo Bruni (1369-1444), em sua Oração nos funerais de Nani Strozzi, elogia Florença dizendo que a constituição da cidade confere iguais possibilidades a qualquer um de tomar parte nos negócios da República.
Essas referências não permitem esquecer o fato de que tanto a polis grega quanto as cidades italianas tinham eram restritivas na atribuição da cidadania, porém, isso não invalida a relação entre cidadania e participação.
Com a impossibilidade da democracia direta quando o processo político passou a ter como referência os grandes Estados nacionais, notadamente no bojo das Revoluções Americana e Francesa, surge a idéia da representação, por conta da qual os cidadãos já não tomam diretamente parte na política, mas delegam a representantes para que o façam.
O aprofundamento do modelo de participação política pela via da representação resultou no surgimento do que se conhece modernamente como políticos profissionais, cuja atividade, normalmente, obedece a uma lógica de interesses distinta da de seus eleitores, os quais, por seu turno, têm sua participação nos negócios da cidade limitada à votação periódica.
Essa dissociação entre representantes e representados se manifesta diariamente em todas as esferas de poder.
A governadora Roseana Sarney, por exemplo, não consultou a população do Maranhão ou de São Luiz sobre a estatização da Fundação que leva o nome de seu pai. Muito menos apresentou a eles a opção entre conservar as cartas de Sarney e equipar hospitais e escolas. E não é possível acusar de inobservância do rito de consulta aos representantes do povo. Efetivamente, as decisões são tomadas pelos políticos profissionais seguindo suas próprias agendas de poder, à revelia dos seus representados.
Como se viu, Aristóteles distingue cidadãos de escravos pela possibilidade de exercício de uma função pública, de participação nas decisões da Cidade. Na dicotomia aristotélica, portanto, a maior parte da população é hoje composta de escravos políticos, pelo simples fato de que escravos não participam das decisões.
Para finalizar, é interessante notar o seguinte trecho do Livro Segundo da Política:
Em primeiro lugar, concorda-se em geral que em todo o Estado bem constituído os cidadãos devem ser eximidos dos cuidados que exigem as primeiras necessidades da vida.
Sob esse ponto de vista, o Estado brasileiro é muito bem constituído, já que seus cidadãos são permanentemente eximidos dos cuidados com suas necessidades reais e imaginárias, bem como assim são seus familiares e amigos. O Estado os provê de tudo o que precisam.
Preocupem-se com as necessidades da vida os escravos que têm de labutar para prover sustento a si mesmo e aos cidadãos. Sem se esquecer do voto periódico que permite a perpetuação dos responsáveis pela escravidão.

Livros consultados:
·        Skinner, Quentin; As Fundações do Pensamento Político Moderno, Companhia das Letras.
·        Aristóteles; A Política, Folha de S.Paulo.

sábado, 29 de outubro de 2011

Lula: o príncipe sábio

As chamadas classes médias acompanharam o governo Lula com um sentimento crescente de decepção por conta do que foi visto como uma traição ao ideário por tanto tempo pregado por ele e seu partido quando na oposição. Decepção que aumentava a cada nova denúncia de corrupção, a cada nova aliança com as antigas oligarquias regionais e nacionais, a cada afastamento do ideal de eficiência e moralidade.
No entanto, visto sob um outro prisma, com Lula, a política brasileira entrou na era moderna, conduzida pelas mãos de um príncipe maquiavélico.
O Príncipe, de Maquiavel, se insere em um gênero literário denominado “espelho dos príncipes”, que tinha por objetivo ensinar as virtudes que os governantes deveriam possuir para serem bons. Ao contrário do que pode parecer, os parâmetros morais apresentados aos príncipes na era medieval e renascentista não eram oriundos somente da Igreja, mas provinham também de uma antiga tradição de moralistas cívicos, dentre os quais o romano Cícero (103-43 a.c.). De acordo com essa tradição, os príncipes deveriam se conduzir da maneira mais virtuosa possível para alcançarem honra e glória.
O moralismo cívico pautava-se, em primeiro plano, pelas chamadas virtudes cardeais: prudência, justiça, temperança e fortaleza. Estas eram complementadas por outro rol de virtudes, denominadas principescas.
No nosso caso, interessa especialmente uma, classificada entre estas últimas: a honestidade, ou seja, a disposição de manter a palavra dada. Ensina Cícero que é um engano acreditar que uma coisa pode ser moralmente certa sem ser conveniente ou ser conveniente sem ser moralmente certa. Se a honestidade é certa é, também, conveniente.
Maquiavel inaugura a modernidade do pensamento político ao, entre outras coisas, romper com esse esquema de virtudes ensinando, no cerne de O Príncipe, que:
“Um príncipe sábio não pode, pois, nem deve manter-se fiel às suas promessas quando, extinta a causa que o levou a fazê-las, o cumprimento delas lhe traz prejuízos.”
Escândalo entre os moralistas da época de Maquiavel e posteriores, chegando até nossos dias. No seu pensar pré-moderno, o príncipe deve ser um exemplo de todas as virtudes, bom e justo.
Maquiavel, no entanto, explica a razão de seu ensinamento:
“Esse preceito não seria bom se os homens fossem todos bons. Como, porém, são maus e, por isso mesmo, faltariam à palavra que acaso nos dessem, nada impede venhamos a faltar também à nossa.”
No caso do nosso príncipe, é possível argumentar que Lula abandonou as virtudes que imaginávamos que ele e o PT possuíam para conquistar e conservar o Poder. Sem as alianças com as oligarquias encasteladas no Congresso Nacional e nos seus feudos regionais, alianças estas forjadas à base de concessões à corrupção, aparelhamento e clientelismo endêmicos no aparelho de Estado, bem provavelmente teria sido apeado da presidência ou mantido nela sem possuir condições de iniciativa.
Sob certos aspectos, Lula faltou com sua palavra quando comparado seu comportamento real com o prometido e esperado. Fez isso para conservar o Poder. Se o fez aprofundando os vícios que corroem a sociedade brasileira, não cabe aqui analisar. O fato é que, precisando dos “trezentos picaretas” do Congresso, a eles se uniu. A realidade sobrepujou o ideal. Mais maquiavélico impossível, já que a realidade que marca decisivamente o pensamento do florentino:
“Entre como se vive e como se deveria viver há tamanha diferença, que aquele que despreza o que se faz pelo que se deveria fazer aprende antes a trabalhar em prol da sua ruína do que da sua conservação.”
Assim, a modernidade política significa a substituição do ideal pela necessidade; do ideal pelo real. A cidade de Deus de Agostinho, pela cidade dos homens de Maquiavel.
No contexto brasileiro atual, é tentador, fácil e simplista articular o discurso pré-moderno da moralidade, requerendo dos homens públicos que sejam éticos, relegando o interesse próprio face ao interesse social. Mas é impossível retomar a inocência perdida.
Ao invés de esperar que os homens sejam bons, a modernidade parece voltada para as formas pelas quais os homens adquirem e exercem o Poder. Se os homens são maus, que sejam obrigados a agir como se fossem bons por força das instituições. Isso implica modificar o processo eleitoral, as relações Executivo-Legislativo-Judiciário. Fazer com que a corrupção não seja uma alternativa válida de exercício do Poder.
Maquiavel, agora nas lições dadas ao povo em seu quase desconhecido Comentários sobre a Primeira Década de Tito Lívio ensina que:
“os homens só fazem o bem quando é necessário; quando cada um tem a liberdade de agir com abandono e licença, a confusão e a desordem não tardam a se manifestar por toda parte”

domingo, 9 de outubro de 2011

Nobreza Hereditária

Duas notícias me chamaram a atenção na semana que passou.
A primeira dando conta de que Anthony Garotinho (PR) e o ex-prefeito Cesar Maia (DEM) resolveram unir suas forças para derrotar o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Nada que seja surpreendente, ainda que se considere que os dois sempre foram rivas ferrenhos na política carioca. O interessante aqui é que a aliança será selada com a candidatura dos filhos dos Senhores à Prefeitura: o deputado federal Rodrigo Maia, como candidato a prefeito e tendo a deputada estadual Clarissa Garotinho como vice. Se o acordo incluir o casamento dos candidatos teremos dado mais um passo rumo às formas medievais de fazer política.
A segunda foi o assédio (eleitoral/eleitoreiro) sofrido por Everson Silva, 26, mais conhecido como Tirulipa, por parte de três dos mais respeitáves partidos do país, PSB, PRB e PR, para que se candidate a vereador em Fortaleza-CE. Everson tem sido cobiçado por suas idéias avançadas sobre cultura e por seu material genético, cuja metade provém de seu pai, o ícone do Parlamento: Francisco Everardo Oliveira Silva (PR-SP), o Tiririca.
O que une as duas notícias é representarem mais etapa do caminho da casta política brasileira rumo à nobreza tipo Antigo Regime. Filhos ocupam o lugar dos pais que ocuparam o lugar dos seus queridos avós, sem qualquer outra indicação que não seja serem da família. Honras e privilégios  transmitidos hereditariamente, num arremedo de democracia.
Os donos do poder portam-se como nobres controlando fóruns diferenciados, oportunidades, nepotismo, inimputabilidade, etc, etc.... Eternizam-se por meio das urnas, da justiça, da cumplicidade dos seus pares e, agora, da hereditariedade.

sábado, 1 de outubro de 2011

Tradução do Tema

A frase que serve de tema ao blog: Homo sum, et nihil humani a me alienum puto é de uma peça de Publius Terentius Afer (195/185–159 BC) e significa, numa das possíveis traduções: Sou Homem, e nada daquilo que diz respeito à humanidade deve ser estranho a mim.
O sentido dessa frase nesse blog pode ser dado pelo seguinte trecho da Oração sobre a Dignidade do Homem, de Giovanni Pico della Mirandola (1463/1494):

        "Ó Adão, não te demos nem um lugar determinado, nem um aspecto que te seja próprio, nem tarefa alguma específica, a fim de que obtenhas e possuas aquele lugar, aquele aspecto, aquela tarefa que tu seguramente desejares, tudo segundo o teu parecer e a tua decisão. A natureza bem definida dos outros seres é refreada por leis por nós prescritas. Tu, pelo contrário, não constrangido por nenhuma limitação, determiná-la-ás para ti, segundo o teu arbítrio, a cujo poder te entreguei. Coloquei-te no meio do mundo para que daí possas olhar melhor tudo o que há no mundo. Não te fizemos celeste nem terreno, nem mortal nem imortal, a fim de que tu, árbitro e soberano artífice de ti mesmo, te plasmasses e te informasses, na forma que tivesses seguramente escolhido. Poderás degenerar até aos seres que são as bestas, poderás regenerar-te até às realidades superiores que são divinas, por decisão do teu ânimo".

Assim é que nossas discussões aqui terão o Homem como personagem principal. Homem capaz de construir catedrais e campos de concentração. De orar e matar. De criar e destruir. Colocado sempre entre o bem e o mal e sem saber, no entanto, o que é o bem e o que é o mal. Condenado a responder às suas próprias perguntas e vivendo de acordo com suas respostas.
Por isso, aqui não há condenação ou absolvição. Apenas olhamos o drama e dele tomamos parte.
E, para quem quer colocar deus na história, é bom lembrar que o mesmo deus fez Hitler e São Francisco de Assis. Ambos tirados do mesmo barro.
Ou não ?

domingo, 25 de setembro de 2011

Milagre nas Estradas

Estive em São Paulo três dias semana passada. Ia pela manhã e voltava à tarde. Nem vou reclamar dos congestionamentos e do gasto absurdo de combustível e tempo provocados pela insanidade de uma sociedade elitista e individualista que se reflete na organização de seu trânsito
Só vou registrar que acho um verdadeiro milagre que não exista um massacre diário nas nossas estradas e ruas, causado pelo desrespeito sistemático das regras mínimas de segurança, para não dizer das de trânsito.
Norbert Elias diz que o trânsito é um dos melhores retratos de uma sociedade. Se visse nossas estradas teria o retrato de uma sociedade hierarquizada, fragmentada, que não respeita as próprias regras de convivência. Os grandes carros de luxo são o retrato da arrogância das nossas elites, abrindo espaço à força entre os carros da plebe. A plebe, por seu turno, desrespeita as leis cuja legitimidade não reconhece, muitas vezes sob o pretexto das necessidades do trabalho.
Parece que, como não conseguimos conviver em sociedade, iremos nos matar com nossas armas movidas a gasolina ou etanol, ou flex. Tudo isso sob o olhar eletrônico ou físico das autoridades de trânsito que se importam tanto com as vítimas do trânsito quanto se importam com as que morrem em deslizamentos.
Enfim, povo, elite e poder público, num holocausto a três mãos.
Curiosidade:
Em 2008, no EUA, foram registradas 12,5 mortes no trânsito para cada 100.000 habitantes. No Brasil, foram registradas 30,1, para uma frota três vezes menor. Se considerarmos esse quesito de produtividade, o Brasil já deixou o Primeiro Mundo para trás, o que não é de se espantar, afinal, somos grandes pilotos.

sábado, 17 de setembro de 2011

Construindo o Futuro

Estamos persuadidos de que a história de um príncipe não é tudo o que ele fez, mas o que fez digno de ser transmitido à posteridade.
(Voltaire - História de Carlos XII)

Uma frase ficou célebre nos últimos anos no Brasil: “Nunca na história desse país!!!”
Não se pode negar que muita coisa foi feita, mas quais dignas de serem transmitidas à posteridade? Obras continuarão a ser feitas. Mas a qual preço? Cestas básicas continuarão a ser entregues. Mas em troca de quê? Acordos políticos continuarão a ser necessários. Mas em que bases?
Em quê mudadmos ?
A impressão que fica é que perdemos, como país, mais uma chance.

domingo, 11 de setembro de 2011

Sobre a corrupção

Maquiavel passou pela praça hoje e, conversando sobre o recente movimento contra a corrupção, me disse algo interessante:

Onde o desregramento é universal, não há leis nem instituições que o possam reprimir.

Comentei com ele que, então, para começarmos bem um movimento contra a corrupção grande dos outros, poderíamos passar a nos abster de pequenas corrupções nossas. Por exemplo, não atravessar o sinal vermelho, nem tentar subornar o guarda que nos vai multar por isso. Ou não estacionar indevidamente nas vagas reservadas para deficientes ou idosos. Ou mesmo não comemorar um pênalti roubado para nosso time.
 Sentado em um banco próximo, Montesquieu palpitou:

a virtude política é uma renúncia a si mesmo, sempre penosa.

Estamos dispostos a renunciar ao uso de corrupção para atingir nossos objetivos? Se alguém é corrupto, alguém é o corruptor. Estamos dispostos na não corromper alguém que vai nos punir por uma falta ou que vai cumprir a lei e contrariar nossos interesses?
Ainda bem que a tarde estava chuvosa e saímos logo da praça....

Toninho ou das Peças de um Quebra-Cabeças

O dia 10 de setembro de 2011 é muito mais do que a véspera do dia 11.
São dez anos de uma tragédia para Campinas e para o Brasil: o assassinato do prefeito Toninho. Não vou colocar a sigla partidária que sempre acompanhou seu nome porque acho que ele não mais gostaria de se associar a ela.
Praticamente ignorada hoje e ao longo de todos esses anos, (a imprensa brasileira prefere lembrar do 11/09 americano)é interessante notar como o tempo se encarregou de juntar as peças para montar o quebra-cabeças:
a) o governo da vice de Toninho, Izalene Tiene, foi marginalizado pelo grupo dominante do partido;
b) o candidato à sucessão pelo partido, Luciano Zica, foi ignorado e traído pelo mesmo grupo, auxiliando em sua derrota no segundo turno (uma amostra da popularidade do gorverno Izalene);
c) os donos do partido preferiram apoiar Hélio de Oliveira Santos, de outro partido e hoje prefeito cassado por, no mínimo, omissão em relação a supostos esquemas de corrupção;
d) na reeleição de Hélio, o partido impôs Demétrio Villagra como vice, o qual foi preso e processado por comandar os mesmos supostos esquemas de corrupção;
e) ameaçado também de cassação, o novo prefeito, teve o apoio e defesa por parte do Grande Avalista e do "núcleo duro" do partido.
Como trilha sonora de tudo isso, o ensurdecedor silêncio do grupo dominante e do Grande Avalista (apesar da promessa de campanha de que a Polícia Federal iria investigar o assassinato) e como moldura a corrupção generalizada no mundo político-partdário brasileiro.
Visto assim, tudo faz sentido.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Legitimidades Rivais

A propósito do mais recente confronto entre o Exército e moradores do Complexo do Alemão no Rio de Janeiro, ouvi uma interessante declaração de alguém que, pela voz, parecia ser um adolescente.
Segundo ele, o exército seria um rival da comunidade.
Essa definição faz lembrar os conflitos entre as quadrilhas que dominavam (ou dominam) os diferentes territórios do Rio de Janeiro, umas rivais das outras. E, mais importante, mostra o quanto o Estado Brasileiro é estranho aos habitantes de seu território, principalmente das áreas em que ele só entra como força de repressão e ocupação. Tão estranho que é visto como uma força rival de quem é tido como legítimo "dono" do espaço, ou seja, do grupo de traficantes que antes ocupava (ou ainda ocupa) aquele território.
Em que pese o fato de que os enfrentamentos e protestos possam apresentar um forte componente de manipulação e instigação por parte dos antigos donos, não deixa de ser o retrato de um Estado cuja legitimidade não é reconhecida, sendo facilmente identificado como somente mais um grupo que se impõe pela violência.
Aliás, que Estado é esse que precisa impor uma força de pacificação dentro de suas próprias fronteiras?

domingo, 4 de setembro de 2011

Bem-vindos à piazza

Já que o nome italiano e uma sentença em latim logo no começo podem parecer pedantes, é interessante explicá-los.
O latim remete à cultura clássica que, como o latim, hoje parece morta. Mas veremos muita gente antiga passeando por nossa praça.
O italiano diz respeito ao fascinante período do Renascimento e nos ajuda a encontrar um grande amigo meu: Maquiavel. Ele me prometeu vir sempre à piazza.
Pensei em escrever alguma coisa em francês, por causa do Voltaire, mas aí já seria demais.
Enfim, a idéia é trazer alguns autores clássicos para conversarmos sobre os mais variados assuntos, mas com uma clara preferência por política. Podemos também falar sobre assuntos mais amenos, como religião e futebol.
Aos que vierem, sintam-se à vontade para ocupar um banco qualquer e comentar as mais recentes notícias de Roma ou de Brasília. Assunto não vai faltar.