quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Tempos da política

A eleição paulistana revelou a contraposição de três projetos políticos que, além de outras diferenças e semelhanças, representam momentos no tempo político brasileiro.
Um é o passado na figura da candidatura tucana que, arraigada em figuras, discursos e práticas congeladas no tempo e no espaço, não consegue elaborar um projeto de país que dê sustentação a uma oposição crível à hegemonia petista. Pode até vencer, mas não tem vitalidade.
Outra é o presente, representado na força do prestígio e do apelo carismático de Lula, apostando suas fichas em um apadrinhado desconhecido e atropelando as estruturas e pessoas históricas no partido para se afirmar como única via dentro do PT e do país. Pode perder, mas a derrota não comprometerá a capacidade de Lula de influir na política brasileira por um bom tempo.
Por fim, o futuro. Pela primeira vez um projeto de poder baseado nas igrejas neo-pentecostais aparece de forma explícita, autônoma e com chances de se apoderar de um importante centro de político. Russomano ou seu partido não têm força própria para vôos mais importantes mas, perdendo ou ganhando, representarão um primeiro ensaio de uma nova força política sustentada nas multidões arrebanhadas pela fé.
Não é um panorama encorajador. Métodos, pessoas e idéias que apresentam perspectivas nada promissoras para o futuro da democracia brasileira, já tão maltratada no passado e no presente.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A Praça e a Urna

Hoje voltei a um trecho do livro Direitos e Deveres na República, escrito na forma de um diálogo entre Norberto Bobbio e Maurizio Viroli, em que este último diz o seguinte:

“Os símbolos da democracia são a praça e os conselhos públicos, mesmo que alguns sustentem que o símbolo da democracia moderna é a cabine eleitoral.”

Esta frase foi uma das inspiradoras desta praça eletrônica. Tenho experiência pessoal de fazer política em conselhos públicos, mas não tenho nas praças. Questão de oportunidade ou estilo.
Num momento em que os cidadãos são levados à eleição nas cidades é interessante distinguir a democracia das praças e dos conselhos da democracia da cabine eleitoral.
A essência da democracia é o diálogo, o encontro entre as opiniões dos cidadãos a respeito dos assuntos da cidade. Isso só pode ser feito na praça, simbolizando o antigo Ágora, onde os gregos se reuniam para deliberar, face a face, um homem, um voto, produzindo decisões por consenso ou por maioria.
Desde a Revolução Americana a teoria política se debate com uma figura essencialmente moderna, controversa, mas indispensável nos grandes estados nacionais, qual seja, o representante político. Diante da impossibilidade da reunião constante dos cidadãos, por conta das distâncias, atividades econômicas ou simplesmente do número, chegou-se à idéia de que um indivíduo poderia representar outros na participação política.
Aí nasce a urna como a conhecemos.
Se das cidades-estado gregas até os principados italianos da Renascença a democracia era vivida pelos cidadãos nas praças e nos conselhos, a partir das revoluções do século XVIII, passou a ser exercida através das urnas. Os cidadãos delegaram sua parcela de soberania para seus representantes.
Se examinada pelo critério da urna, a democracia brasileira está em seu melhor momento.Se examinada pelo critério da praça, ou seja, da participação e da soberania dos cidadãos, a situação é inversa. 
Eleições são realizadas constantemente para a eleição dos representantes no Legislativo e no Executivo. São livres, tanto quanto o voto é secreto. Têm a aura de limpas, sob o olhar infalível da informática. No entanto, os cidadãos não têm controle sobre o que fazem seus representantes. Mesmo a escolha dos candidatos é feita pelos donos de partidos, em processos opacos. Após uma eleição cuja lógica impede o debate e auxilia na perpetuação da oligarquia dominante, os representantes se fecham numa casta dedicada aos próprios interesses, sem correspondência com os de seus representados.
 Votar em representantes, apenas, não é democracia. Tanto que, sob a sombra da urna, vivemos em um regime autoritário legitimado pela eleição, por mais que isso possa soar contraditório.
Esta é a raiz dos problemas da democracia moderna: a urna silenciou a praça.

domingo, 15 de julho de 2012

Democracia, liberdade e fé

Dois momentos significativos a se destacar da reportagem de Rodrigo Vizeu, para a Folha de S. Paulo, sobre a Marcha para Jesus.
Primeiro, a fala do representante da presidenta, o ministro Marcelo Crivella, que foi levado a ser ministro da Pesca talvez por uma leitura equivocada da convocação evangélica para que os apóstolos fossem pescadores de homens. Se serve para melhorar a pescaria ou não, não se sabe, mas um ministério sempre serve para arrumar uma verba aqui, conseguir mais um adepto para a igreja/partido acolá. Enfim, voltemos ao que disse o pastor/pescador/ministro:
Dilma pediu para transmitir votos de que seja uma marcha que celebre a liberdade, a fé e a democracia no Brasil”, teria dito Crivella.
Tirando o fato de a presidenta não querer transmitir votos mas, sim, coletá-los (verbo utilizado sem qualquer trocadilho, pelo amor de deus !! (essa última expressão também não tem significado religioso)) dos evangélicos, se disse isso mesmo revela que não conhece lições de história e política.
De história, porque liberdade e fé nunca se deram muito bem e não foi por causa da primeira, que sempre tolerou a segunda. A fé é que não suporta a liberdade, principalmente dos que não têm fé ou têm outra que não as do fiel, seja ele qual for. Veja a questão da união entre pessoas do mesmo sexo para se ter uma idéia de quanto a fé não respeita a liberdade.
De política, porque democracia e fé são incompatíveis. Democracia, de verdade, não isso que temos hoje, pressupõe diálogo entre concepções diferentes de mundo, na busca de uma verdade que pode estar com o outro. No entanto, como debater com quem se arroga à condição de representante de deus? Por definição, deus está sempre com a razão, pelo que é inútil discutir. Não é só inútil, é pecado. E o pecador deve ser excluído ou perseguido, nunca escutado.
Outro momento interessante é a fala de outro pescador de homens reafirmando a legitimidade da intenção de direcionamento do voto do rebanho evangélico pelos pastores e igrejas.
Não é de hoje que a religião, qualquer que seja sua denominação, quer retomar o poder que lhe foi retirado pela Revolução Francesa e parece que ela se sente agora em condições de conseguir, ironicamente, pelo voto. Se conseguir seu intento, veremos o quanto liberdade e democracia são incompatíveis com a fé.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Nêmesis em São Paulo

No templo de Delfos, duas advertências de Apolo alertam homens e heróis: “Conhece-te a ti mesmo” e “Nada em excesso”.
Alguns heróis ficaram marcados por ultrapassarem a medida estabelecida para os mortais e, com isso, cometerem uma ofensa aos deuses, à ordem universal que define os limites. Chama-se a isto hybris, que significa uma desmesura, um descomedimento causado pelo orgulho.
Essa violação da ordem é punida pela deusa Nêmesis, filha da Noite, que provoca no herói desmedido a cegueira da razão. Tudo que o herói fizer daí em diante se voltará contra ele mesmo até que tudo volte ao seu lugar.
Sem reconhecer seus limites, tomado pela hybris, o herói se excede e Nêmesis se volta contra ele para restaurar a ordem universal.
Tudo isso para falar do comportamento de Lula nas eleições municipais, especialmente a de São Paulo.
Seus oito anos de presidência e a eleição de Dilma parecem ter feito com que Lula se imagine um herói todo poderoso na política brasileira.
Para ficar só na capital paulista, escanteou setores históricos do PT junto com Marta Suplicy, impôs seu candidato que só tem seu apoio como credencial para governar a maior cidade do país e, por fim, por enquanto, apertou a mão de Maluf sufocando mais um pouco de sua biografia anterior à presidência. Uma foto que escancara que não existem mais limites à sua vontade de poder.
 Ele reina. Sua vontade impera. Faz tudo isso porque se julga infalível.
Lula joga tudo para vencer os tucanos em seu próprio ninho. Quer exterminar o pouco que resta de uma oposição que, no final das contas, não consegue representar qualquer ameaça à continuidade do reino nacional petista. É sua obsessão. Parece cego de orgulho. Extrapola todos os limites para satisfazer sua obsessão pessoal contra os tucanos.
Da mesma forma que a eleição paulistana representa uma armadilha para Serra, pode representar Nêmesis para Lula.
Uma derrota, que será vista como pessoal, colocará em xeque sua pretensão de entender mais de política que todo o PT, assim como sua capacidade de eleger quem queira apenas com seu prestígio. Encontrará mais dificuldade, portanto, para impor sua vontade ao partido, para reinar sozinho.
Essa diminuição do poder do herói levará à possibilidade de surgimento de novas lideranças que dividam com ele o palco. O universo político tenderá a retomar sua dinâmica plural, ameaçada pelo herói que ultrapassou as medidas.
Um dos heróis mais famosos cegados por sua hybris foi Narciso, punido exatamente por sua vaidade.
Os velhos gregos entendiam das coisas.

  

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A Falta que Faz uma Base Aliada

A deposição do presidente do Paraguai, Fernando Lugo, joga luz sobre um dos mistérios da política brasileira: a necessidade que tem o Executivo de construir e manter, a altos custos, a massa de parlamentares que se acostumou chamar de “Base Aliada”.
Durante o governo FHC e parte do de Lula, a justificativa para a manutenção de uma base parlamentar tão ampla que, na prática, inviabiliza qualquer ação da oposição, era a necessidade da implementação das famosas reformas constitucionais que requerem uma maioria de dois terços da Câmara e do Senado para serem aprovadas.
Sem entrar no mérito das reformas ou da desculpa, havia, e há, uma agenda subjacente: a garantia de que o Executivo não seria deposto por um Congresso descontente por algum motivo. É interessante notar que, no governo Dilma, mesmo não havendo mais aquela volúpia por mudar a Constituição, a base aliada continua firme e forte, o que demonstra sua importância para garantir a continuidade do governo.
Talvez tendo aprendido com a deposição de Collor, que preferiu jogar sem uma base aliada, FHC e Lula se garantiram e se garante Dilma, mantendo uma maioria capaz de evitar grandes dissabores originados, por exemplo, de uma CPI. Construídas com o cimento e a cal expostos no mensalão, as diversas bases aliadas cumpriram sua missão, mesmo com uma consistência ideológica tão duvidosa como os métodos utilizados para juntá-las.
O presidente do Paraguai não construiu sua base aliada. Pagou com o cargo quando o Congresso resolveu que ele não mais deveria presidir o país.
Não importam as razões que os parlamentares mal se dignaram a expor. Nem apelos para o exercício do direito de defesa. Lugo poderia passar meses se defendendo. Não adiantaria. O motivo do parlamento era simplesmente excluí-lo do poder. Contra isso, nenhum argumento de Lugo faria efeito. Queriam afastá-lo e o fizeram poupando a todos de um processo que, durasse o quanto durasse, já tinha desfecho certo.
Sem discutir aqui se o governo Lugo foi bom ou não, o golpe parlamentar teve quase todos os ingredientes dos golpes antigos, sem faltar o apelo dos bispos paraguaios para que o presidente não resistisse. Faltaram os tanques. Mas os tradicionais partidos Colorado e Liberal, rivais e sócios desde tempos imemoriais, desta vez estavam alinhados e não precisaram de um só tiro. Parecia mesmo uma democracia.
Tivesse Lugo uma base aliada interessada em sua preservação, interesses ideológicos ou econômicos não importa, não cairia, por pior que fosse seu governo. Em embates de facções cujos integrantes se defendem a qualquer custo e em qualquer circunstância, o que menos importa é a verdade ou o interesse público. Importa o poder, lei antiga da política.
Alguns mais radicais chamariam quadrilhas ao que chamei facções. Desculpem, mas tenho que manter o jargão consagrado na política.

domingo, 6 de maio de 2012

Três Vezes Brasil

Três fotografias da sociedade brasileira em mutação. Ou seria decomposição ?
Primeira.
Em uma entrevista à revista Veja, edição de 02 de maio de 2012, a esposa do Sr. Carlinhos Cachoeira diz, textualmente:
“Quero que ele saia dessa política nojenta.”
Interessante como a declaração reflete nossa relação com a sociedade da qual fazemos parte. A julgar por tudo o que vem sendo vazado pela imprensa, o Sr. Carlinhos Cachoeira é um dos responsáveis pelo tipo de políticos e de política que temos. No entanto, sua esposa parece encarar a política como algo independente do agir do marido, como se eles vivessem em um outro mundo. Fala como se fosse apenas a política do Brasil que é nojenta e não o agir do marido que colabora para que ela seja assim.
Somos assim, subornamos o policial e reclamamos da corrupção dos agentes do Estado. Achamos nossos políticos incompetentes e engrossamos a torrente de votos do candidato “de protesto”, nos divertindo repetindo que “pior não fica”. Nosso trânsito é horroroso, mas precisamos passar no sinal vermelho porque, afinal de contas, estamos muito atrasados! Vivemos no Brasil, como se o olhássemos de um outro planeta para identificar e criticars seus problemas. Nunca para reconhecer nossa parcela na existência deles.
Segunda.
Em um assalto, praticado por um adolescente em companhia de um outro assaltante maior de idade, quem aguardava a dupla do lado de fora era o pai do adolescente, dirigindo o carro da fuga. O assalto terminou na morte do comerciante.
No momento em que uma das questões mais discutidas, em que pese sua enorme banalidade, é a chamada Lei da Palmada, um pai acompanha o filho em um assalto, dando-lhe cobertura para a fuga e, certamente, se acobertando com sua menoridade penal. É risível discutir se um pai pode dar uma palmada num filho em uma sociedade cujos valores passados de pai para filho são oriundos de um assalto à mão armada que deixou uma pessoa morta. Ou são originados em contratos fraudados com o Estado.
Terceira.
Uma comerciária em Campinas, em uma rápida conversa com um cliente, relata que irá trabalhar no feriado do dia Primeiro de Maio, uma vez que a empresa prefere pagar a multa decorrente da violação da lei que proíbe a abertura de estabelecimentos comerciais a ficar sem o faturamento do dia.
As leis normalmente veiculam os valores de certo e errado de uma sociedade. As condutas são permitidas, obrigatórias ou proibidas de acordo com os valores que lhe são atribuídos. Nesse esquema, por mais ingênuo que seja, a penalidade decorrente da violação da lei não é uma opção, mas uma reprimenda pela desobediência.
Diz muito de uma sociedade o fato de a penalidade ser tomada como uma variável no cálculo das condutas. Demonstra que o desrespeito à lei não é, em si, algo indesejável. A lei não é um imperativo moral, de certo ou errado. Só será assim se a punição for tal que force o respeito. Se a punição for menor que o ganho ou, ainda, se a possibilidade de punição for diminuta, as condutas não precisarão seguir a lei. Cada um que faça seus cálculos. E a escalada da gritaria dos moralistas aumentará até que todas as penas sejam de morte em uma sociedade morta.
Maquiavel, ouvindo as notícias, comenta:
“Onde o desregramento é universal, não há leis nem instituições que o possam reprimir. De fato, os bons costumes só podem ser conservados com o apoio de boas leis, e a observação das leis exige bons costumes. Além disso, as leis e instituições estabelecidas na origem de uma república, quando os cidadãos eram virtuosos, se tornam insuficientes quando eles começam a se corromper.” (Comentários sobre a Primeira Década de Tito Lívio)

sábado, 28 de abril de 2012

Dinheiro e Poder

Ao longo da história, o surgimento de novos setores econômicos provocou mudanças políticas de longo alcance.
O aumento do comércio minou a ordem medieval, assim como o predomínio do capital industrial lançou as bases para a moderna sociedade democrática de massas.
Essa relação entre economia e política provoca reflexões quando se conhece os seguintes números atuais:

a) Economia Informal no Brasil – R$ 578 bilhões ao ano, 18,4% do PIB, equivalente ao PIB da Argentina. Nos países mais desenvolvidos, chega a 10%. Fonte: FGV e OCDE;

b) O crime gera cerca de US$ 2,1 Trilhões, ou 3,6 do PIB mundial, equivalente a uma das 20 maiores economias do mundo – Fonte: ONU;

c) Corrupção mundial envolve US$ 1 Trilhão, 1,6 % do PIB mundial – Fonte: Banco Mundial;

d) Faturamento no Tráfico de Drogas: US$ 320 bilhões no mundo, com estimativas de margem de lucro de 80%.

Interessante notar como a economia criminosa vem se infiltrando na economia lícita, a ponto de ser difícil hoje distinguir uma da outra. É criminoso quem compra uma mercadoria nos chamados circuitos informais? Ou é uma opção econômica racional comprar mercadorias mais baratas? O cálculo deve levar em conta o trabalho escravo, o contrabando ou a corrupção envolvidos na produção e circulação? Ou não?
O dinheiro do crime serve para irrigar os circuitos da corrupção política assim como dos grandes mercados financeiros globalizados perfeitamente legais e cuja influência sobre os Estados nacionais são esmagadoras, serve como exemplo o que ocorre hoje na Grécia e em outros países europeus subjugados às notas de risco das agências financeiras globais.
O crime hoje é uma questão econômica e política, não moral. Nesse novo mundo, esperar que um traficante deixe de vender drogas ou pessoas, ou que um político não se corrompa no serviço a interesses privados, somente com base em apelos à consciência social de cada um, parece tão utópico quanto o medieval Dom Quixote investindo contra os moinhos de vendo do comércio.
Uma nova forma de atividade econômica ganha peso e predominância e, com isso, o acesso às chaves que abrem as portas do Poder.



domingo, 8 de abril de 2012

Políticos Profissionais e Aristocracia Eletiva

A noção clássica de democracia ou república tem como pressuposto a participação direta dos cidadãos na condução dos negócios da cidade, seja ocupando os cargos e magistraturas, seja fazendo parte dos conselhos e assembléias dotadas de poder decisório.
Isso perdurou até o Renascimento Italiano, quando as cidades ainda eram as unidades da vida cívica. No entanto, as cidades italianas representavam algo de anacrônico face às grandes monarquias que se firmavam em outras partes da Europa. O aparecimento dos grandes Estados centralizados na pessoa do rei significou o desaparecimento da cidadania e de qualquer forma de participação autônoma na política.
As Revoluções Americana e Francesa recolocaram na cena a figura do cidadão, porém, se defrontaram com os limites à participação direta impostos pela extensão territorial do Estado-Nação. A democracia com participação direta havia sido uma experiência de pequenas Cidades-Estado, cujo tamanho permitia a reunião dos cidadãos. Como fazê-lo em Estados do tamanho que haviam atingido França e Estados Unidos? Havia mesmo um quase consenso de que a democracia/república, não poderia ser implantada em tais condições.
Surge, então, a figura do representante que haveria de ocupar as assembléias e magistraturas em lugar e em nome dos demais cidadãos. Daí as nossas familiares eleições para deputados, senadores, vereadores, presidentes. Nasceram da impossibilidade de que todos os cidadãos se reunissem na freqüência necessária por causas como distâncias, locais e falta de interesse em deixar os negócios privados para a ocupação com os negócios comuns localizados no Estado. Os cidadãos haviam mudado também nesse ínterim.
A democracia representativa alcançou razoável sucesso desde então. Porém, tanto tempo depois, esses representantes são hoje a maior causa da crise de legitimidade dos sistemas políticos.
Uma das causas é a profissionalização da classe política, ou seja, a transformação da representação, que deveria ser temporária, em exercício permanente de uma função social.
Em Senso Comum (1776), obra contemporânea à Independência Americana, Thomas Paine adverte que:
e para que os eleitos jamais formem para si próprios um interesse diverso do dos eleitores, a prudência mostrará a oportunidade de eleições frequentes, pois, podendo os eleitos, por tal meio, regressar em poucos meses ao corpo geral dos eleitores e com eles fundir-se, a sua fidelidade ao público ficará garantida pela prudente reflexão de não prepararem uma punição para si próprios.[1]
É possível ver nessas palavras um eco de Aristóteles, que definiu cidadão como aquele que comanda e que obedece. Reversamente, a cidadania existe onde todos os cidadãos possam ser súditos e magistrados. Já vimos isso aqui antes.
Na teoria política da época de Paine, muito influenciada por ele, a realização de eleições freqüentes visava garantir a rotatividade dos representantes, evitando que se formasse uma nova aristocracia nascida das urnas. Para complementar o efeito das eleições, havia a imposição de limites aos mandatos consecutivos.
Trazendo para nossos dias, a possibilidade de renovação ilimitada de mandatos permitiu a formação de uma casta de políticos profissionais, cujos interesses só eventualmente coincidem com aqueles que são seus eleitores. Na maior parte das vezes, o interesse que move essa nova aristocracia é a manutenção do próprio poder.
O efeito de eleições realizadas nos moldes em que acontecem atualmente, é neutralizado por um sistema político-eleitoral que representa, na verdade, uma reserva de mercado para os que já ocupam cargos eletivos. Começando pela possibilidade de reeleição ilimitada e passando por fatores como controle das estruturas partidárias pelos próprios representantes, a cooptação e a utilização do poder econômico, político e até da força para impedir o surgimento de novas lideranças, o sistema político atual não permite que as eleições atuem como meio de renovação da classe política.
 Some-se a isso a falta de interesse dos demais cidadãos em quebrar essas barreiras por meio da participação política e temos o surgimento da nova aristocracia eletiva que finge se renovar a cada quatro anos.
Voltaremos a isso.


[1] Thomas Paine, Senso Comum (1776), Coleção Os Pensadores, Abril Cultural

quarta-feira, 21 de março de 2012

Papel de Candidato


O assunto da campanha paulista nesta semana foi a reação do tucano perpétuo, José Serra, quando confrontado com a inevitável pergunta sobre sua promessa, feita em campanha anterior à prefeitura de São Paulo, de não deixar o cargo antes do término do mandato. Como se sabe, saiu.
Segundo reportou a Folha de S. Paulo, Serra teria respondido: Primeiro: eu não assinei nada em cartório. Eu assinei um papelzinho. Não era nada.
Parece que os tucanos, embora pretendam ser o único partido letrado na política brasileira, tem problemas com a escrita, basta lembrar a frase que colou no tucano-mor, FHC, “esqueçam o que escrevi”, tenha ele efetivamente dito ou não.
A reação de Serra pode levantar algumas questões importantes, diante do fato de que ele fez a promessa que agora renega, ainda que verbalmente.
Primeira: se, escrita em um “papelzinho de nada”, uma promessa não precisa ser cumprida, então os eleitores que se empolguem com uma das muitas promessas que Serra fará durante a presente campanha deverão pedir que o candidato as transcreva em papel timbrado do partido, por exemplo. Não é preciso pedir que seja com o timbre oficial do Palácio dos Bandeirantes, até porque seria uso da máquina pública na campanha. De toda a forma, parece que Alckmin não anda com muita vontade de emprestar o seu timbre ao candidato.
Segunda: se, ainda que devidamente vertida para o papel, as promessas do candidato tiverem que ser registradas em cartório, haverá um enorme procura pelos registros civis ao fim de cada comício ou programa de televisão.
De toda a forma, parece que as palavras de candidato, se não escritas em papel oficial e registradas em cartório, são nada.
Muito além do curioso e do anedótico, o comportamento de Serra retrata o desprezo dos homens públicos brasileiros pelas promessas/propostas/programas que apresentam aos eleitores durante as campanhas e aos cidadãos ao longo de seus mandatos. Não vale nem o que está escrito, seja em papeizinhos ou em programas de governo.
E o desprezo pelos programas reflete o desprezo pelos os eleitores. Os políticos sabem que, eleição após eleição, receberão os votos que os reconduzirão aos cargos cujo exercício nenhuma semelhança terá com o que prometeram, verbalmente ou por escrito.
Então, por que gastar papel, tinta e dinheiro para registrar promessas de campanha?

sexta-feira, 2 de março de 2012

Uma Análise Infernal

         Um jornalista americano recordou recentemente uma frase dita, em 2008, pelo candidato a candidato à presidência americana pelo Partido Republicano, Rick Santorum, segundo a qual a crise dos créditos podres, que iniciou a atual crise financeira mundial, decorreria das artes de Satan.
Segundo a análise categorizada econômico-financeira-política do então deputado, “Satan está atacando as grandes instituições da América, usando os grandes vícios do orgulho, da vaidade e da sensualidade”. Por fim, advertiu Santorum: “Satan está de olho nos Estados Unidos da América”. *
Pobre América, de Terra da Promissão no imaginário dos puritanos que a colonizaram a alvo do tinhoso.
A manifestação do candidato, que não é, nem de longe, representante de crenças isoladas, permite duas observações.
Se Santorum (não é estranho que uma pessoa com um nome desses creia na força do capeta ???) estiver certo, é melhor que os americanos elejam um bom exorcista para dar jeito na maior depressão econômica desde 1930 e no atoleiro político que se tornou a queda de braço entre republicanos e democratas por conta da intransigência que paralisa o congresso americano.
Por outro lado, acho que ele tem um pouco de razão. Mas acho que as armas que o tentador está utilizando contra os EUA (e, pelo jeito, contra o mundo todo) são os políticos representantes da direita religiosa conservadora e raivosa que, em nome do que entendem ser a palavra de deus, se acham no direito de discriminar e perseguir; de se negar a ouvir o outro; de doutrinar incessantemente ostentando a aparência de puros e escolhidos; de se sentirem melhores que os outros.
Diante do avanço dos púlpitos sobre a praça pública, da doutrinação sobre o diálogo, é bom sempre lembrar que a liberdade pressupõe respeitar e ouvir o diferente. E democracia só existe com liberdade. Não é possível sustentar uma democracia sobre pessoas que se acham donas da verdade. Só ditaduras sobrevivem assim.
Satan não faria um trabalho melhor do que o que os extremistas religiosos estão fazendo para destruir a América.

*Tradução livre das frases: “Satan is attacking the great institutions of America, using those great vices of pride, vanity and sensuality (…) (por incrível que pareça, continua) e “Satan has his sights on the United States of America”.

O Tucano e a Isca

José Serra admitiu a pré-candidatura (pré é só para dar a impressão de que existe democracia interna no PSDB):
"Estou sendo candidato para governar a cidade até quando o mandato durar, até 2016. Sei que essa questão vai ser posta, principalmente pelos adversários, mas vou cumprir os quatros anos, e isso é mais do que uma promessa - garantiu ele.
Mordeu a isca. Até agora o plano limpa-caminho do Príncipe Herdeiro está dando certo.
Agora é ver se os paulistanos mordem também, mesmo depois do abandono dos cargos de prefeito e governador em nome da idéia fixa presidencial.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Isca para Pegar Tucano


Para que não fique parecendo que só falamos sobre coisas antigas aqui na piazza, queria compartilhar uma impressão que fiquei acompanhando esse minueto dançado pelo PT-Lula e o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab.
A esdrúxula aliança entre o PT e o ex-malufista foi morta no ninho pela aparente decisão de José Serra se lançar candidato com o apoio de Kassab, que já havia declarado seu apoio ao tucano caso este fosse candidato. Parece que o grão-tucano José Serra, admitindo a candidatura para evitar a aliança, mordeu a isca e foi pego numa armadilha.
Se for realmente candidato, com o apoio de Kassab e passando por cima das prévias partidárias, aparentemente Serra é favorito na disputa contra o candidato de Lula-PT.
No entanto, mesmo se vencer, provavelmente estará dando adeus ao seus sonhos presidenciais, uma vez que o PSDB considerará o cargo de prefeito da maior cidade do país como um belo prêmio de consolação e uma aposentadoria digna para seu tão incômodo partidário. Além do mais, como carregar um candidato que irá rasgar pela segunda vez seu compromisso com São Paulo? Como isso, o caminho estará definitivamente aberto para a candidatura do “príncipe herdeiro” mineiro.
Se for derrotado, Serra será carimbado definitivamente como candidato inviável e irá encerrar (mais uma vez) sua carreira política e, ainda por cima, permitirá o estabelecimento do ponto de apoio para que o PT-Lula se lance ao governo do Estado, ameaçando os tucanos de extinção.
Mas os problemas de Serra continuam mesmo se não for candidato.
Caso o PSDB seja derrotado na figura de um de seus candidatos novatos, boa parte da conta será debitada a Serra, pela sua intransigência e idéia fixa com o Planalto em detrimento do partido, algo que acabará por comprometer o apoio interno às suas pretensão presidenciais. E ainda verá o polivalente PSD se entregar aos abraços de Lula-PT. Enlace que, diga-se de passagem, ambos estão doidinhos para que aconteça. Dificilmente se recuperará a ponto de se viabilizar como (eterno) candidato à presidência.
E se o PSDB, sem Serra, vencer? Aí então é que a aposentadoria política virá, inevitável e melancolicamente, sem prêmios de consolação.
Portanto, a arapuca caiu sobre um dos maiores tucanos da floresta. Resta saber quem jogou a iscassab (desculpem, não resisti ao trocadilho). Aécio em um movimento típico das raposas mineiras? O PT-Lula para afastar um adversário indigesto? O próprio PSDB, para afastar um correligionário indigesto? Serra é que não foi. Ele queria se empoleirar em outras árvores.

Reabertura da Piazza

Depois do carnaval e de muito pensar se valeria a pena continuar a escrever aqui e, ainda mais, escrever tendo por “gurus” autores tão antigos, resolvi reabrir a piazza ao nosso convívio. Abaixo algumas conversas que me convenceram:
Voltaire, falando em 1734:
Ensina-se honestidade aos homens, senão poucos chegariam a tê-la. Deixai vosso filho, desde a infância agarrar tudo que lhe caia nas mãos: aos quinze anos roubará pelas estradas; Louvai-o por ter mentido: tornar-se-á uma testemunha falsa. Vangloriai-o por sua concupiscência: certamente será um debochado.” (Voltaire, Cartas Inglesas, XXV Carta; 1734. Editora Abril, Os Pensadores).
De Thomas Paine, escrevendo em 1776:
Os que se consideram nascidos para reinar e julgam os outros nascidos para obedecer não tardam a tornar-se insolentes. Separados do resto da humanidade, a importância cedo lhes envenena o espírito; e o mundo em que agem difere tão materialmente do mundo em geral que pouca oportunidade têm de saber quais são os verdadeiros interesses deste e, quando sucedem no governo, são a maioria das vezes os mais ignorantes e inadequados em todos os domínios.” (Thomas Paine, Senso Comum, 1776. Editora Abril, Os Pensadores).
E, ainda, meu querido Maquiavel:
Há um meio infalível para conhecermos um ministro. Se virmos que ele pensa mais em si do que em só e que em todas as ações anda em busca do seu próprio interesse, poderemos estar certos de que ele é mau ministro e devemos olhá-lo com desconfiança. Quem gere os negócios de um príncipe nunca deve pensar em si mesmo, mas nele, nem lembrar-lhe outras coisas que não sejam as pertencentes ao Estado.”(Nicolau Maquiavel, O Príncipe, 1512, Jardim dos Livros)
Ouvindo essas coisas ao caminhar pela piazza, percebi que nossos amigos têm muito a compartilhar conosco: as raízes de parte de nossa delinquência, a forma de pensar de nossa aristocracia ou as qualidades de um ministro. Assuntos extremamente atuais.
E o mais interessante: falam desde um tempo em que as coisas eram nominadas sem os disfarces de linguagem criados ao longo do tempo. Usam palavras como roubo, mentira, deboche sem disfarçá-las como desvios de conduta ou de comportamento adolescente. Tratam de aristocracia, tirania e nobreza categorias que talvez tratássemos de representantes eleitos, Poder Executivo, poder econômico. De insolência ao invés de prerrogativas do cargo. Interesse sem enfeitar como governabilidade.
Tudo fica mais claro assim.
Por essas e por outras é que resolvi voltar à nossa piazza.
Espero também que os visitantes, caso venham, encontrem algum banco e compartilhem com nossos amigos suas impressões sobre o mundo em que vivemos ou sobre o que eles e outros viveram.