Dois momentos significativos a se destacar da reportagem de Rodrigo Vizeu, para a Folha de S. Paulo, sobre a Marcha para Jesus.
Primeiro, a fala do representante da presidenta, o ministro Marcelo Crivella, que foi levado a ser ministro da Pesca talvez por uma leitura equivocada da convocação evangélica para que os apóstolos fossem pescadores de homens. Se serve para melhorar a pescaria ou não, não se sabe, mas um ministério sempre serve para arrumar uma verba aqui, conseguir mais um adepto para a igreja/partido acolá. Enfim, voltemos ao que disse o pastor/pescador/ministro:
“Dilma pediu para transmitir votos de que seja uma marcha que celebre a liberdade, a fé e a democracia no Brasil”, teria dito Crivella.
Tirando o fato de a presidenta não querer transmitir votos mas, sim, coletá-los (verbo utilizado sem qualquer trocadilho, pelo amor de deus !! (essa última expressão também não tem significado religioso)) dos evangélicos, se disse isso mesmo revela que não conhece lições de história e política.
De história, porque liberdade e fé nunca se deram muito bem e não foi por causa da primeira, que sempre tolerou a segunda. A fé é que não suporta a liberdade, principalmente dos que não têm fé ou têm outra que não as do fiel, seja ele qual for. Veja a questão da união entre pessoas do mesmo sexo para se ter uma idéia de quanto a fé não respeita a liberdade.
De política, porque democracia e fé são incompatíveis. Democracia, de verdade, não isso que temos hoje, pressupõe diálogo entre concepções diferentes de mundo, na busca de uma verdade que pode estar com o outro. No entanto, como debater com quem se arroga à condição de representante de deus? Por definição, deus está sempre com a razão, pelo que é inútil discutir. Não é só inútil, é pecado. E o pecador deve ser excluído ou perseguido, nunca escutado.
Outro momento interessante é a fala de outro pescador de homens reafirmando a legitimidade da intenção de direcionamento do voto do rebanho evangélico pelos pastores e igrejas.
Não é de hoje que a religião, qualquer que seja sua denominação, quer retomar o poder que lhe foi retirado pela Revolução Francesa e parece que ela se sente agora em condições de conseguir, ironicamente, pelo voto. Se conseguir seu intento, veremos o quanto liberdade e democracia são incompatíveis com a fé.
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