quinta-feira, 28 de junho de 2012

A Falta que Faz uma Base Aliada

A deposição do presidente do Paraguai, Fernando Lugo, joga luz sobre um dos mistérios da política brasileira: a necessidade que tem o Executivo de construir e manter, a altos custos, a massa de parlamentares que se acostumou chamar de “Base Aliada”.
Durante o governo FHC e parte do de Lula, a justificativa para a manutenção de uma base parlamentar tão ampla que, na prática, inviabiliza qualquer ação da oposição, era a necessidade da implementação das famosas reformas constitucionais que requerem uma maioria de dois terços da Câmara e do Senado para serem aprovadas.
Sem entrar no mérito das reformas ou da desculpa, havia, e há, uma agenda subjacente: a garantia de que o Executivo não seria deposto por um Congresso descontente por algum motivo. É interessante notar que, no governo Dilma, mesmo não havendo mais aquela volúpia por mudar a Constituição, a base aliada continua firme e forte, o que demonstra sua importância para garantir a continuidade do governo.
Talvez tendo aprendido com a deposição de Collor, que preferiu jogar sem uma base aliada, FHC e Lula se garantiram e se garante Dilma, mantendo uma maioria capaz de evitar grandes dissabores originados, por exemplo, de uma CPI. Construídas com o cimento e a cal expostos no mensalão, as diversas bases aliadas cumpriram sua missão, mesmo com uma consistência ideológica tão duvidosa como os métodos utilizados para juntá-las.
O presidente do Paraguai não construiu sua base aliada. Pagou com o cargo quando o Congresso resolveu que ele não mais deveria presidir o país.
Não importam as razões que os parlamentares mal se dignaram a expor. Nem apelos para o exercício do direito de defesa. Lugo poderia passar meses se defendendo. Não adiantaria. O motivo do parlamento era simplesmente excluí-lo do poder. Contra isso, nenhum argumento de Lugo faria efeito. Queriam afastá-lo e o fizeram poupando a todos de um processo que, durasse o quanto durasse, já tinha desfecho certo.
Sem discutir aqui se o governo Lugo foi bom ou não, o golpe parlamentar teve quase todos os ingredientes dos golpes antigos, sem faltar o apelo dos bispos paraguaios para que o presidente não resistisse. Faltaram os tanques. Mas os tradicionais partidos Colorado e Liberal, rivais e sócios desde tempos imemoriais, desta vez estavam alinhados e não precisaram de um só tiro. Parecia mesmo uma democracia.
Tivesse Lugo uma base aliada interessada em sua preservação, interesses ideológicos ou econômicos não importa, não cairia, por pior que fosse seu governo. Em embates de facções cujos integrantes se defendem a qualquer custo e em qualquer circunstância, o que menos importa é a verdade ou o interesse público. Importa o poder, lei antiga da política.
Alguns mais radicais chamariam quadrilhas ao que chamei facções. Desculpem, mas tenho que manter o jargão consagrado na política.

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