domingo, 25 de setembro de 2011

Milagre nas Estradas

Estive em São Paulo três dias semana passada. Ia pela manhã e voltava à tarde. Nem vou reclamar dos congestionamentos e do gasto absurdo de combustível e tempo provocados pela insanidade de uma sociedade elitista e individualista que se reflete na organização de seu trânsito
Só vou registrar que acho um verdadeiro milagre que não exista um massacre diário nas nossas estradas e ruas, causado pelo desrespeito sistemático das regras mínimas de segurança, para não dizer das de trânsito.
Norbert Elias diz que o trânsito é um dos melhores retratos de uma sociedade. Se visse nossas estradas teria o retrato de uma sociedade hierarquizada, fragmentada, que não respeita as próprias regras de convivência. Os grandes carros de luxo são o retrato da arrogância das nossas elites, abrindo espaço à força entre os carros da plebe. A plebe, por seu turno, desrespeita as leis cuja legitimidade não reconhece, muitas vezes sob o pretexto das necessidades do trabalho.
Parece que, como não conseguimos conviver em sociedade, iremos nos matar com nossas armas movidas a gasolina ou etanol, ou flex. Tudo isso sob o olhar eletrônico ou físico das autoridades de trânsito que se importam tanto com as vítimas do trânsito quanto se importam com as que morrem em deslizamentos.
Enfim, povo, elite e poder público, num holocausto a três mãos.
Curiosidade:
Em 2008, no EUA, foram registradas 12,5 mortes no trânsito para cada 100.000 habitantes. No Brasil, foram registradas 30,1, para uma frota três vezes menor. Se considerarmos esse quesito de produtividade, o Brasil já deixou o Primeiro Mundo para trás, o que não é de se espantar, afinal, somos grandes pilotos.

sábado, 17 de setembro de 2011

Construindo o Futuro

Estamos persuadidos de que a história de um príncipe não é tudo o que ele fez, mas o que fez digno de ser transmitido à posteridade.
(Voltaire - História de Carlos XII)

Uma frase ficou célebre nos últimos anos no Brasil: “Nunca na história desse país!!!”
Não se pode negar que muita coisa foi feita, mas quais dignas de serem transmitidas à posteridade? Obras continuarão a ser feitas. Mas a qual preço? Cestas básicas continuarão a ser entregues. Mas em troca de quê? Acordos políticos continuarão a ser necessários. Mas em que bases?
Em quê mudadmos ?
A impressão que fica é que perdemos, como país, mais uma chance.

domingo, 11 de setembro de 2011

Sobre a corrupção

Maquiavel passou pela praça hoje e, conversando sobre o recente movimento contra a corrupção, me disse algo interessante:

Onde o desregramento é universal, não há leis nem instituições que o possam reprimir.

Comentei com ele que, então, para começarmos bem um movimento contra a corrupção grande dos outros, poderíamos passar a nos abster de pequenas corrupções nossas. Por exemplo, não atravessar o sinal vermelho, nem tentar subornar o guarda que nos vai multar por isso. Ou não estacionar indevidamente nas vagas reservadas para deficientes ou idosos. Ou mesmo não comemorar um pênalti roubado para nosso time.
 Sentado em um banco próximo, Montesquieu palpitou:

a virtude política é uma renúncia a si mesmo, sempre penosa.

Estamos dispostos a renunciar ao uso de corrupção para atingir nossos objetivos? Se alguém é corrupto, alguém é o corruptor. Estamos dispostos na não corromper alguém que vai nos punir por uma falta ou que vai cumprir a lei e contrariar nossos interesses?
Ainda bem que a tarde estava chuvosa e saímos logo da praça....

Toninho ou das Peças de um Quebra-Cabeças

O dia 10 de setembro de 2011 é muito mais do que a véspera do dia 11.
São dez anos de uma tragédia para Campinas e para o Brasil: o assassinato do prefeito Toninho. Não vou colocar a sigla partidária que sempre acompanhou seu nome porque acho que ele não mais gostaria de se associar a ela.
Praticamente ignorada hoje e ao longo de todos esses anos, (a imprensa brasileira prefere lembrar do 11/09 americano)é interessante notar como o tempo se encarregou de juntar as peças para montar o quebra-cabeças:
a) o governo da vice de Toninho, Izalene Tiene, foi marginalizado pelo grupo dominante do partido;
b) o candidato à sucessão pelo partido, Luciano Zica, foi ignorado e traído pelo mesmo grupo, auxiliando em sua derrota no segundo turno (uma amostra da popularidade do gorverno Izalene);
c) os donos do partido preferiram apoiar Hélio de Oliveira Santos, de outro partido e hoje prefeito cassado por, no mínimo, omissão em relação a supostos esquemas de corrupção;
d) na reeleição de Hélio, o partido impôs Demétrio Villagra como vice, o qual foi preso e processado por comandar os mesmos supostos esquemas de corrupção;
e) ameaçado também de cassação, o novo prefeito, teve o apoio e defesa por parte do Grande Avalista e do "núcleo duro" do partido.
Como trilha sonora de tudo isso, o ensurdecedor silêncio do grupo dominante e do Grande Avalista (apesar da promessa de campanha de que a Polícia Federal iria investigar o assassinato) e como moldura a corrupção generalizada no mundo político-partdário brasileiro.
Visto assim, tudo faz sentido.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Legitimidades Rivais

A propósito do mais recente confronto entre o Exército e moradores do Complexo do Alemão no Rio de Janeiro, ouvi uma interessante declaração de alguém que, pela voz, parecia ser um adolescente.
Segundo ele, o exército seria um rival da comunidade.
Essa definição faz lembrar os conflitos entre as quadrilhas que dominavam (ou dominam) os diferentes territórios do Rio de Janeiro, umas rivais das outras. E, mais importante, mostra o quanto o Estado Brasileiro é estranho aos habitantes de seu território, principalmente das áreas em que ele só entra como força de repressão e ocupação. Tão estranho que é visto como uma força rival de quem é tido como legítimo "dono" do espaço, ou seja, do grupo de traficantes que antes ocupava (ou ainda ocupa) aquele território.
Em que pese o fato de que os enfrentamentos e protestos possam apresentar um forte componente de manipulação e instigação por parte dos antigos donos, não deixa de ser o retrato de um Estado cuja legitimidade não é reconhecida, sendo facilmente identificado como somente mais um grupo que se impõe pela violência.
Aliás, que Estado é esse que precisa impor uma força de pacificação dentro de suas próprias fronteiras?

domingo, 4 de setembro de 2011

Bem-vindos à piazza

Já que o nome italiano e uma sentença em latim logo no começo podem parecer pedantes, é interessante explicá-los.
O latim remete à cultura clássica que, como o latim, hoje parece morta. Mas veremos muita gente antiga passeando por nossa praça.
O italiano diz respeito ao fascinante período do Renascimento e nos ajuda a encontrar um grande amigo meu: Maquiavel. Ele me prometeu vir sempre à piazza.
Pensei em escrever alguma coisa em francês, por causa do Voltaire, mas aí já seria demais.
Enfim, a idéia é trazer alguns autores clássicos para conversarmos sobre os mais variados assuntos, mas com uma clara preferência por política. Podemos também falar sobre assuntos mais amenos, como religião e futebol.
Aos que vierem, sintam-se à vontade para ocupar um banco qualquer e comentar as mais recentes notícias de Roma ou de Brasília. Assunto não vai faltar.