segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Donald e o povo

Donald, nosso personagem preferido, já mostrou as credenciais para as instituições americanas em seu discurso de abertura. Vejam o que disse nosso querido:
A cerimônia de hoje, no entanto, tem um significado muito especial porque hoje não estamos apenas transmitindo o poder de uma administração a outra ou de um partido ao outro, mas estamos transferindo o poder de Washington, D.C., e o devolvendo a vocês, o povo.
O que realmente importa não é qual partido controla nosso governo, mas se nosso governo é controlado pelo povo.
O ditador e o populista sempre falam em nome do povo e não das instituições e partidos. Por uma razão muito simples: o povo não ter rosto, não tem opinião. Ou, o que dá no mesmo, tem muitos rostos, tem muitas opiniões. Nessas condições, o líder autoritário é o rosto do povo, é seu porta-voz. Assim, pode falar o que quiser e dizer que fala em nome do povo.
Partidos e instituições, pelo contrário, têm opiniões identificáveis, têm rostos conhecidos, têm comportamentos controláveis. Não se pode dizer que, por exemplo, o Partido Democrata tenha opiniões restritivas quanto à imigração. Da mesma forma, não se pode dizer que o Obama defenda tais restrições. O mesmo se diga da Suprema Corte. Mas, o líder pode dizer que o “povo” não quer imigrantes. Quem vai dizer que não? A imprensa? Ora, o povo sabe que a imprensa mente para defender os políticos tradicionais.
Agora, imaginem quando, por exemplo, a Suprema Corte, considere alguma medida do nosso Donald inconstitucional. São juízes que não foram eleitos pelo “povo”. Será que eles podem contrariar um governante eleito? Afinal, todo poder emana do povo. Mas o líder terá agido contra a lei. Ora, a lei também emana do povo!!
Imaginem se a coisa fique tão feia que o Congresso instaure um processo de impedimento. Como é que eles ousam voltar-se contra o representante máximo do povo? Sua voz diretamente eleita?
E por aí vai, num prognóstico de confronto entre poderes que pode abalar todas as instituições americanas, instituições que têm sido a principal inspiração das democracias ocidentais.
É por isso que o líder autoritário fala em nome do “povo”. Porque o que o “povo” quer só ele sabe e só ele representa. Os que a ele se opõem, estão contra o “povo”.

Será interessante acompanhar como a democracia americana lidará com um líder autoritário e populista nos moldes que infelicita a América Latina há séculos.

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