Hoje
vamos deixar nosso Donald de lado e vamos voltar para nossos tristes
trópicos, onde um belo país vê seu Estado desmoronar sob o poder
de facções políticas, criminosas e, agora, policiais.
Teoricamente,
o Estado se baseia no monopólio da força e da tributação, um
reforçando o outro. Esse motim demonstra que o Estado,
principalmente os sub-nacionais, não têm mais ascendência sobre
suas tropas armadas e estão à mercê de suas reivindicações. Se
essas reivindicações são justas ou injustas não vem ao caso, o
problema é que os policiais demonstram que não se sentem
subordinados aos governos eleitos. Fazem o que quiserem com as armas
que lhes foram confiadas pela Constituição. Inclusive, guardá-las
para impor suas vontades.
Nessa
situação, mais uma facção enfrenta um Estado sem condições
financeiras, materiais e morais, de reagir. Continuando firmes e
espalhando o motim para outras unidades da federação, conseguirão
colocar o Estado de joelhos. Não se enganem, as outras facções de
policiais estão apenas esperando o resultado do motim no Espírito
Santo para espetarem seus governadores na parede.
Três
outras fotografias
brasileiras
se revelam nesse caso.
Primeira,
a desfaçatez da desculpa para o aquartelamento dos amotinados. Não
estão em greve, só não podem sair porque as mulheres os impedem.
Estampam na cara da sociedade seu desprezo pela lei que os impede de
entrar em greve. Cinismo a que já estamos acostumados em outras
esferas. Quero crer que, fossem mulheres de presos, por exemplo, já
teria sido tiradas da frente dos quartéis.
Segunda,
a facilidade com que a população se pôs a aproveitar a falta de
policiamento para soltarem as amarras que os impedem de cometer
os mais diversos tipos de crime. Mostra uma sociedade que só é
contida pela força bruta, não demonstrando resquícios de valores
éticos que impediriam os crimes mesmo sem a presença da polícia.
Terceira,
o Exército vem ganhando cada vez mais legitimidade perante a
sociedade como a resposta para nossas crises. Enquanto estiverem
substituindo o aparelho policial no patrulhamento das ruas para
garantir a segurança, vá lá. Quando alguém tiver a ideia de
utilizá-lo para substituir o sistema político com a justificativa
de combater a corrupção generalizada, o problema vai ser muito
maior. A ideia já existe, ganha força, mas ainda não tem
legitimidade suficiente.
Disse
John Hamilton, no Artigo Federalista nº VIII, publicado por volta de
1787:
A
contínua necessidade de seus serviços amplia a importância do
soldado, degradando na mesma medida a situação do cidadão. A
condição militar eleva-se acima do civil. Os habitantes dos
territórios, muitas vezes o próprio teatro da guerra, são
inevitavelmente sujeitos a frequentes violações de seus direitos,
que servem para enfraquecer sua consciência dos mesmos;
gradualmente, o povo é levado a considerar os soldados não só como
seus protetores, mas como seus superiores. Daí a considerá-los sues
chefes o caminho não é longo nem difícil (…).
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