domingo, 12 de fevereiro de 2017

Uma Nova Facção

Hoje vamos deixar nosso Donald de lado e vamos voltar para nossos tristes trópicos, onde um belo país vê seu Estado desmoronar sob o poder de facções políticas, criminosas e, agora, policiais.
Teoricamente, o Estado se baseia no monopólio da força e da tributação, um reforçando o outro. Esse motim demonstra que o Estado, principalmente os sub-nacionais, não têm mais ascendência sobre suas tropas armadas e estão à mercê de suas reivindicações. Se essas reivindicações são justas ou injustas não vem ao caso, o problema é que os policiais demonstram que não se sentem subordinados aos governos eleitos. Fazem o que quiserem com as armas que lhes foram confiadas pela Constituição. Inclusive, guardá-las para impor suas vontades.
Nessa situação, mais uma facção enfrenta um Estado sem condições financeiras, materiais e morais, de reagir. Continuando firmes e espalhando o motim para outras unidades da federação, conseguirão colocar o Estado de joelhos. Não se enganem, as outras facções de policiais estão apenas esperando o resultado do motim no Espírito Santo para espetarem seus governadores na parede.
Três outras fotografias brasileiras se revelam nesse caso.
Primeira, a desfaçatez da desculpa para o aquartelamento dos amotinados. Não estão em greve, só não podem sair porque as mulheres os impedem. Estampam na cara da sociedade seu desprezo pela lei que os impede de entrar em greve. Cinismo a que já estamos acostumados em outras esferas. Quero crer que, fossem mulheres de presos, por exemplo, já teria sido tiradas da frente dos quartéis.
Segunda, a facilidade com que a população se pôs a aproveitar a falta de policiamento para soltarem as amarras que os impedem de cometer os mais diversos tipos de crime. Mostra uma sociedade que só é contida pela força bruta, não demonstrando resquícios de valores éticos que impediriam os crimes mesmo sem a presença da polícia.
Terceira, o Exército vem ganhando cada vez mais legitimidade perante a sociedade como a resposta para nossas crises. Enquanto estiverem substituindo o aparelho policial no patrulhamento das ruas para garantir a segurança, vá lá. Quando alguém tiver a ideia de utilizá-lo para substituir o sistema político com a justificativa de combater a corrupção generalizada, o problema vai ser muito maior. A ideia já existe, ganha força, mas ainda não tem legitimidade suficiente.
Disse John Hamilton, no Artigo Federalista nº VIII, publicado por volta de 1787:

A contínua necessidade de seus serviços amplia a importância do soldado, degradando na mesma medida a situação do cidadão. A condição militar eleva-se acima do civil. Os habitantes dos territórios, muitas vezes o próprio teatro da guerra, são inevitavelmente sujeitos a frequentes violações de seus direitos, que servem para enfraquecer sua consciência dos mesmos; gradualmente, o povo é levado a considerar os soldados não só como seus protetores, mas como seus superiores. Daí a considerá-los sues chefes o caminho não é longo nem difícil (…).

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