sexta-feira, 21 de março de 2014

Uma Bolsa de Outros Valores

Bem, já que o último post fez tanto sucesso que foi discutido em outra praça, vamos voltar ao tema, até porque parece que eu não deixei clara minha opinião sobre o bolsa-família.
Em primeiro lugar, não sou contra nem acho que deva ser extinto. Principalmente porque é uma das formas mais eficientes de realizar a tão decantada e tão evitada distribuição de renda. E nossos índices de desigualdade são pornográficos. É um tipo inicial de renda mínima de cidadania, por tanto tempo defendida pelo hoje senador Suplicy, e pela qual cada brasileiro deveria ter um mínimo de renda que lhe garantisse uma sobrevivência digna.
Dito isso, acho que podemos analisar esse programa sob diversos aspectos.
Socialmente, os recursos permitem acesso a bens de consumo de primeira necessidade, garantindo um nível mínimo de sobrevivência E esse acesso é feito respeitando a dignidade de quem recebe, pois coloca o recurso diretamente em suas mãos, sem ter que passar pelo deputado, pelo prefeito, pelo vereador. E ainda respeita suas preferências: cada um gasta como quer.
Economicamente, ajuda a desenvolver as atividades locais, uma vez que os gastos são feitos no local onde os beneficiários vivem, movimentando o comércio, a agricultura e a indústria, com potencial para gerar um ciclo virtuoso de crescimento econômico.
Pesquisas mostram, ainda, a melhoria da freqüência e do desempenho escolar de crianças cuja família é beneficiada, o que irá repercutir em melhores oportunidades.
Uma crítica freqüente diz que as pessoas deixam de trabalhar para viver apenas “da ajuda do governo”. Duas observações a respeito. Uma, se uma pessoa tem ofertas de salário tão baixas que prefere viver do auxílio, é porque o salário oferecido por seu trabalho é mesmo indigno. Outra, se alguém quiser mesmo viver do auxílio, é uma opção econômica como qualquer outra. Responda: qual o valor necessário para que você deixe de trabalhar para viver de renda? Porquê um beneficiário não pode fazer a mesma escolha? Porque é pobre? Porque o dinheiro é tirado dos nossos impostos? Acho que é uma das melhores destinações que ele pode ter, pensando pragmaticamente no quanto a desigualdade de renda prejudica o Brasil.
O grande calcanhar de Aquiles (para manter a tendência a citações dos clássicos desse blog) do programa é sua repercussão política, na medida em que é gritante a tendência de voto em favor do governo nas regiões mais pobres e, consequentemente, com maior índice de favorecidos. Há um claro e inegável efeito de indução de voto no governo.
Bem, em primeiro lugar, acho mais que natural que as pessoas votem em quem os beneficie. Reelegemos FHC por causa da aura de criador do Real. Porque as pessoas que ganham o bolsa-família não podem votar no Lula por causa dela? Também é uma escolha racional como qualquer outra. Esse comportamento não é novo nem exclusivo, com a diferença de que antes as pessoas votavam em troca de dentaduras, um pé de botina (o outro só se o candidato ganhasse), camisas para o time de futebol. Pelo menos, agora, o voto é dado em troca de um programa que produz resultados efetivos e duradouros, promovendo o entorno social e economicamente.
Do ponto de vista da oposição, resta encontrar uma alternativa tão boa ou, então, admitir os méritos do programa e jurar de pés juntos que os programas continuarão caso ganhem. Mas, as dificuldades da oposição não afetam as qualidades e defeitos do programa em si.
Esse impasse da oposição revela que, efetivamente, os ganhos promovidos pelos programas de distribuição de renda estão definitivamente incorporados ao panorama sócio-político. Dificilmente algum candidato conseguirá os votos se defender sua extinção. Se fizer isso depois de eleito, enfrentará resistências de grande potencial explosivo.
Acredito que o programa pode ser aperfeiçoado até se transformar, efetivamente, numa renda mínima de cidadania. E a neutralização do seu efeito político será uma conseqüência de uma consciência cidadã de que os recursos disponibilizados pelo não decorrem de um favor do mandatário de plantão, mas um direito à participação na riqueza nacional que é um direito de todo brasileiro pelo simples fato de ser um cidadão.
Puxa, parece um discurso!!!

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