Na mitologia grega, a guerra de Tróia teria começado por causa do
famoso “pomo da discórdia”, ou seja, de uma maçã que Eris, a discórdia, jogou
entre Hera, Atena e Afrodite com a inscrição de que era endereçada “à mais bela”.
É de se imaginar a confusão que aconteceu.
Já a mitologia hebraica atribui à maçã uma série de problemas ainda maiores.
Parece que o Brasil, por meio de dois de seus mais destacados candidatos a mitos,
acaba de contribuir para a cultura universal ao criar a “banana da discórdia”.
O gesto do Daniel Alves, ao comer a fruta arremessada à arena (hoje não
existem mais campos de futebol, mas “arenas”. Pelo tipo de futebol que se pratica
por aqui, até acho o nome mais adequado), pode até ser compreendido sob o
argumento de que estava de cabeça quente e agiu num impulso. Mas não deixa de
ser uma submissão à agressão racista que sofreu.
Mas a mensagem do Neymar (nosso mais badalado “craque”, se é o melhor é
outra discussão), “somos todos macacos” me parece ser uma bobagem sem tamanho. Ao
fazê-lo, deu razão aos racistas e chamou sobre si o que acredito ser uma das
piores ofensas no arsenal desse tipo de gente. É como se admitisse o ataque. É como
se dissesse: já que não se pode vencê-los,
junte-se a eles.
E o pior. Não chamou somente sobre si, mas sobre todos aqueles que, a
partir de agora, poderão ser assim agredidos sob a desculpa de que “o Neymar
mesmo disse”. Não se trata apenas da agressão ao Daniel Alves. Mas de uma
agressão a um sem número de pessoas que são muito mais expostas e frágeis. E me
parece que a maioria delas não concorda com o Neymar.
Imagino que o torcedor que arremessou a malfadada fruta tropical (que
deve custar bem caro na Espanha) possa se defender da seguinte maneira: “mas se
um deles comeu e o outro admitiu, que fiz eu de errado? Foi até mesmo uma forma
de homenagem, nunca racismo!”
O racismo é um tema muito delicado e sério para ser tratado com tamanha
leviandade. Ao que parece, a manifestação do Neymar teria sido até mesmo criada
por uma agência de publicidade. Ou seja, mais um golpe publicitário oportunista
em que o protagonista que recita um texto sem refletir sobre suas conseqüências,
sobre os efeitos que podem produzir naqueles que ouvem.
Ao banalizar esse tipo de agressão ou tentar protestar contra eles com
frases de efeito duvidoso, os gestos dos nossos amados jogadores podem
significar uma porta aberta para outras piores. Mas eles não têm culpa de
desconhecer a história dos países onde vivem ou de onde vieram. Fechar a porta
ao mal é mais difícil do que deixá-la sempre fechada.
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