terça-feira, 29 de abril de 2014

Dos Frutos da Discórdia

Na mitologia grega, a guerra de Tróia teria começado por causa do famoso “pomo da discórdia”, ou seja, de uma maçã que Eris, a discórdia, jogou entre Hera, Atena e Afrodite com a inscrição de que era endereçada “à mais bela”. É de se imaginar a confusão que aconteceu.
Já a mitologia hebraica atribui à maçã uma série de problemas ainda maiores.
Parece que o Brasil, por meio de dois de seus mais destacados candidatos a mitos, acaba de contribuir para a cultura universal ao criar a “banana da discórdia”.
O gesto do Daniel Alves, ao comer a fruta arremessada à arena (hoje não existem mais campos de futebol, mas “arenas”. Pelo tipo de futebol que se pratica por aqui, até acho o nome mais adequado), pode até ser compreendido sob o argumento de que estava de cabeça quente e agiu num impulso. Mas não deixa de ser uma submissão à agressão racista que sofreu.
Mas a mensagem do Neymar (nosso mais badalado “craque”, se é o melhor é outra discussão), “somos todos macacos” me parece ser uma bobagem sem tamanho. Ao fazê-lo, deu razão aos racistas e chamou sobre si o que acredito ser uma das piores ofensas no arsenal desse tipo de gente. É como se admitisse o ataque. É como se dissesse: já que não se pode vencê-los, junte-se a eles.
E o pior. Não chamou somente sobre si, mas sobre todos aqueles que, a partir de agora, poderão ser assim agredidos sob a desculpa de que “o Neymar mesmo disse”. Não se trata apenas da agressão ao Daniel Alves. Mas de uma agressão a um sem número de pessoas que são muito mais expostas e frágeis. E me parece que a maioria delas não concorda com o Neymar.
Imagino que o torcedor que arremessou a malfadada fruta tropical (que deve custar bem caro na Espanha) possa se defender da seguinte maneira: “mas se um deles comeu e o outro admitiu, que fiz eu de errado? Foi até mesmo uma forma de homenagem, nunca racismo!”
O racismo é um tema muito delicado e sério para ser tratado com tamanha leviandade. Ao que parece, a manifestação do Neymar teria sido até mesmo criada por uma agência de publicidade. Ou seja, mais um golpe publicitário oportunista em que o protagonista que recita um texto sem refletir sobre suas conseqüências, sobre os efeitos que podem produzir naqueles que ouvem.
Ao banalizar esse tipo de agressão ou tentar protestar contra eles com frases de efeito duvidoso, os gestos dos nossos amados jogadores podem significar uma porta aberta para outras piores. Mas eles não têm culpa de desconhecer a história dos países onde vivem ou de onde vieram. Fechar a porta ao mal é mais difícil do que deixá-la sempre fechada.


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