quarta-feira, 17 de julho de 2013

Renan, o Legítimo

O senador Renan Calheiros, eleito por Alagoas, às vezes tem sua legitimidade questionada nas ruas ou nesse novo Àgora democrático que são as redes sociais. Alguém se lembra do abaixo-assinado produzido para que ele saísse da presidência do Senado? Ele também não deve se lembrar, dada a parisiense indiferença com que tratou a iniciativa dos impotentes e indignados cidadãos.
No entanto, Renan é um representante duplamente legítimo da nossa democracia.
Primeiro, foi legitimamente eleito pelo povo de seu Estado para representá-lo no Senado Federal. Por legitimamente entenda-se dentro das regras e pelo voto livre dos eleitores. Livre aqui é tem uma pitada de ironia. Porém, é um voto tão válido quanto os votos de mineiros, goianos ou paulistas.
Segundo, é legítimo representante da nobreza política que controla nossa, digamos, República. Pressionado pelo povo às portas do Congresso, apressou-se a legislar para agradar a turba. Na semana seguinte, já estava aboletado irregularmente em aviões públicos.
Dentre suas propostas sacadas do bolso do colete para adoçar a boca dos manifestantes estaria o passe livre de ônibus, amplo, geral e irrestrito. Até nisso representa a nossa aristocracia, já que não se preocupa com o quanto suas ideias representarão em gasto de dinheiro público. Ora, se é público, não é de ninguém, pode-se fazer dele o que bem se entende, diz a regra de ouro da aristocracia.
Porém, Renan não ouve a multidão quando esta pede sua renúncia.
Mas, por quê haveria de ouvir, de escutar, e pior: de atendê-la? Afinal de contas, é um representante tão legítimo quanto qualquer outro. Só porque não gostam dele não têm o direito de cassar a expressão da vontade de seus eleitores. Até porque o tipo de gente que é eleito em outros Estados não se diferencia muito dele.
Renan traz em si uma das maiores contradições da democracia. O representante da aristocracia política legitimamente eleito não pode ser apeado do poder sem o rompimento da própria ordem democrática, tomando por certo que não será derrubado por seus pares, como se viu no caso da multiplicação milagrosa do gado de Renan. Ou seja, faça o que fizer, continuará ali, a desprezar a multidão que pede sua saída.
E o que a multidão pode fazer contra ele? Nada. Pelo menos não dentro das regras democráticas, a não ser que se mude para Alagoas e vote em massa contra sua eleição da próxima vez. Caso contrário, como diria o Velho Lobo: terão que engoli-lo. Isso porque os eleitores que já estão por lá, não se mostram disposto a abandoná-lo nas urnas, seja por que motivo for.
Mas Renan não é o único. A maioria dos representantes legitimamente eleitos nas urnas sofre uma crescente deterioração de legitimidade nas ruas. Historicamente, nos momentos em que o acúmulo de ilegitimidade dos representantes legítimos atinge níveis críticos, o desfecho normalmente acontece fora das regras democráticas. É o velho jogo político entre legitimidade e violência.

Quem se habilita? Quem tem força suficiente? As ruas? Os chefes do Executivo e do Judiciário já se assanharam. Ou ninguém?

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