sexta-feira, 19 de julho de 2013

Notícias de Versailles

Cortesãos ouviram o Rei reclamar de que vândalos haviam se infiltrado nas recentes manifestações pacíficas:

“Vocês viram o estado em que deixaram a Bastilha?”

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Renan, o Legítimo

O senador Renan Calheiros, eleito por Alagoas, às vezes tem sua legitimidade questionada nas ruas ou nesse novo Àgora democrático que são as redes sociais. Alguém se lembra do abaixo-assinado produzido para que ele saísse da presidência do Senado? Ele também não deve se lembrar, dada a parisiense indiferença com que tratou a iniciativa dos impotentes e indignados cidadãos.
No entanto, Renan é um representante duplamente legítimo da nossa democracia.
Primeiro, foi legitimamente eleito pelo povo de seu Estado para representá-lo no Senado Federal. Por legitimamente entenda-se dentro das regras e pelo voto livre dos eleitores. Livre aqui é tem uma pitada de ironia. Porém, é um voto tão válido quanto os votos de mineiros, goianos ou paulistas.
Segundo, é legítimo representante da nobreza política que controla nossa, digamos, República. Pressionado pelo povo às portas do Congresso, apressou-se a legislar para agradar a turba. Na semana seguinte, já estava aboletado irregularmente em aviões públicos.
Dentre suas propostas sacadas do bolso do colete para adoçar a boca dos manifestantes estaria o passe livre de ônibus, amplo, geral e irrestrito. Até nisso representa a nossa aristocracia, já que não se preocupa com o quanto suas ideias representarão em gasto de dinheiro público. Ora, se é público, não é de ninguém, pode-se fazer dele o que bem se entende, diz a regra de ouro da aristocracia.
Porém, Renan não ouve a multidão quando esta pede sua renúncia.
Mas, por quê haveria de ouvir, de escutar, e pior: de atendê-la? Afinal de contas, é um representante tão legítimo quanto qualquer outro. Só porque não gostam dele não têm o direito de cassar a expressão da vontade de seus eleitores. Até porque o tipo de gente que é eleito em outros Estados não se diferencia muito dele.
Renan traz em si uma das maiores contradições da democracia. O representante da aristocracia política legitimamente eleito não pode ser apeado do poder sem o rompimento da própria ordem democrática, tomando por certo que não será derrubado por seus pares, como se viu no caso da multiplicação milagrosa do gado de Renan. Ou seja, faça o que fizer, continuará ali, a desprezar a multidão que pede sua saída.
E o que a multidão pode fazer contra ele? Nada. Pelo menos não dentro das regras democráticas, a não ser que se mude para Alagoas e vote em massa contra sua eleição da próxima vez. Caso contrário, como diria o Velho Lobo: terão que engoli-lo. Isso porque os eleitores que já estão por lá, não se mostram disposto a abandoná-lo nas urnas, seja por que motivo for.
Mas Renan não é o único. A maioria dos representantes legitimamente eleitos nas urnas sofre uma crescente deterioração de legitimidade nas ruas. Historicamente, nos momentos em que o acúmulo de ilegitimidade dos representantes legítimos atinge níveis críticos, o desfecho normalmente acontece fora das regras democráticas. É o velho jogo político entre legitimidade e violência.

Quem se habilita? Quem tem força suficiente? As ruas? Os chefes do Executivo e do Judiciário já se assanharam. Ou ninguém?

sábado, 13 de julho de 2013

A Morte de Mirabeau

Thomas Carlyle (1795/1881), na sua História da Revolução Francesa, escrita quase como um romance, fala sobre a morte de Mirabeau, o aristocrata eleito pelo povo para os Estados Gerais de 1789, e que tentava encontrar uma forma de salvar a monarquia da extinção. Mais que história, trata da vida.


Mas Mirabeau não podia viver outro ano, da mesma forma que não podia viver mil anos. Os anos dos homens são numerados e a conta dos de Mirabeau estava agora completa. importante ou não importante: que seja mencionado na História Universal durante alguns séculos, ou que não seja ali mencionado mais do que um dia ou dois, isso pouco importa ao destino peremptório. No meio dos esforços duma vida de intensa atividade, o pálido mensageiro silentemente faz sinal: interesses em larga extensão, projetos, salvação de monarquias francesas, seja o que for que tiveres em mão, terás repentinamente de abandonar e ir. Quer estejas a salvar monarquias francesas; quer estejas a engraxar sapatos na Pont Neuf! Nem o mais importante dos homens pode ficar: mesmo que a História do Mundo dependa dele por uma hora, essa hora não é concedida. Do que se conclui que estes mesmos "teriam sido" são as mais das vezes uma vaidade; e que a História do Mundo nunca podia, de maneira nenhuma, ter sido o que ela podia ou devia ser, por qualquer espécie de potencialidade, mas simples e absolutamente o que é.