sexta-feira, 27 de março de 2015

Carta aos meus Amigos Tucanos

Caríssimos,

conta a história que Catão, ao se ver diante de César e Pompeu, cuja disputa pelo poder absoluto levaria à destruição da República Romana, teria dito:

Sei de quem devo correr, só não sei para onde.

Essa é a minha situação política hoje: sei de quem devo correr, só não sei para onde.
E o PSDB tem me oferecido poucas oportunidades de abrigo.
Além das razões políticas, sociais e econômicas que me levaram a votar no PT em três eleições presidenciais, os outros motivos me foram dados pelo próprio PSDB.
Serra e Alckmin representam, na minha opinião, o que há de mais representativo do pensamento elitista e conservador que há no Brasil e, especialmente, em São Paulo. O Serra ainda tem um pouco de lustro político-acadêmico pelo sua história. Mas, o Geraldo, como um infeliz marketeiro tentou apelidá-lo para disfarçar o sobrenome e a ideologia, é uma nulidade, uma mediocridade exemplar.
Mas, vocês podem me perguntar, você não votou nesses mesmos nomes para o governo paulista.
Votei. Não por eles, mas, apesar deles. Tive sempre o único propósito de não permitir que o PT, governando São Paulo, venha a consolidar quase que irremediavelmente, sua hegemonia sobre o Brasil. Isso tem dado certo, mas meus votos continuam a sair dolorosamente.
Quanto à última eleição, votei no Aécio também numa tentativa de interromper o domínio incompetente e inconsequente do PT. Como disse na carta aos petistas, não dava mais para votar neles.
O PSDB parou no tempo e não consegue formular uma proposta que tenha a mínima credibilidade para confrontar o PT. Parece que a estabilização promovida pelo FHC congelou também o partido.
Veja o caso do Bolsa Família. Vocês não conseguem nem convencer que irão mantê-la, nem apresentar uma alternativa melhor.
As análises sócio-políticas do FHC, por mais corretas que estejam, não se prestam para vencer eleições. Vocês precisam entender que a massa que vota no PT o faz porque, bem ou mal, o governo lhes dá o que comer e uma perspectiva de sair da miséria, coisa que a nossa elite nunca conseguiu fazer, a não ser em forma de caridade ou de ajuda de emergência.
Diante das grandes transformações pelas quais passou o país, o PSDB precisa se reinventar como um verdadeiro partido social-democrata e formular uma proposta para o Brasil que não tenha a cara ultrapassada da elite paulista tradicional.
Caso contrário, estará fadado a ser, para mim ao menos, uma simples opção anti-PT, na falta de outra melhor. E vocês viram o estrago causado pela candidatura do PSB.
E, antes que eu me esqueça, acho importante que o PSDB esteja nas manifestações protestando contra tudo o que esse governo representa. Mas, como diz minha mãe, cuidado com as companhias de vôo.
Cuidado com esses grupos radicais da direita. O ninho de vocês não é esse. Vocês têm sangue democrata (não do DEM, pelo amor de deus !!) nas veias.
Afastem-se dos grupos que defendem a manutenção das relações de subordinação social e política do povo brasileiro. Não há como reconstruir o paraíso da classe dominante. Não sujem o bico com essa fruta envenenada.
E, por fim, qualquer movimento de depor a presidente sem que seja pelos caminhos legais, por meio de qualquer golpe, nascido no Legislativo ou na caserna, fará com que eu passe a defender esse governo, apesar de tudo o que ele é.
Não façam isso comigo!!!


quinta-feira, 12 de março de 2015

Carta aos Meus Amigos Petistas

Caríssimos,

no momento em que retorno à praça, momento grave para o Brasil, preciso começar falando com vocês, em respeito às suas histórias, militâncias e convicções.
Continuamos amigos, apesar de divergirmos em algumas coisas. Mas, aprendemos em Minas, que política não se faz com o fígado e a melhor coisa para se fazer com amigos é discutir política.
Vocês sabem que eu nunca fui petista, pelo contrário, sempre me considerei um liberal na política, talvez nossa maior divergência. Não obstante, como vocês sabem, sempre fui profundamente indignado com nossas condições de injustiça social, econômica e política que se perpetuam na história.
Pois bem, esse perfil me levou a votar com vocês (tenho até uma estrelinha de lapela, lembram dela?) nas três primeiras eleições que o PT ganhou. 
Acho que se eu expuser o que o PT representava para mim em cada uma delas, vocês compreenderão o que quero dizer:


I – no primeiro Lula:
1 – Ética e uma nova forma de fazer política
2 – Distribuição de Renda/Justiça Social
3 – Desenvolvimento Econômico e Crescimento

II – no segundo Lula:
1 - Distribuição de Renda/Justiça Social
2 – Desenvolvimento Econômico e Crescimento

III – na primeira Dilma:
1 - Distribuição de Renda/Justiça Social

Na segunda Dilma não consegui mais. E não porque as alternativas me agradassem. Mas porque um segundo mandato Dilma não representaria mais nada para mim.
Com efeito, perdida a bandeira da ética (“todo mundo faz assim”) e comprometidas as bases para o crescimento e o desenvolvimento por incompetência ou populismo, a distribuição de renda e a justiça social não tem mais bases de sustentação.
Como podem ver, à medida que foram se sucedendo os governos petistas, fui me afastando cada vez mais. Acho que não fui eu quem mudou.
Hoje, no deserto político em que estamos, confesso que gostaria de votar novamente no PT.
Mas num PT que denunciava os 300 picaretas do Congresso e não o PT que se juntou a eles para mergulhar no balcão de negócios feitos com dinheiro roubado ao Estado brasileiro.
Num PT que denunciou a compra de votos para a aprovação da reeleição de FHC, não num PT que usou dinheiro de caixa-dois e vindo de propinas nas estatais para financiar suas campanhas.
Num PT que combatia Sarney e que ajudou a derrubar Collor e não no PT que se aliou a eles e ao que há de mais atrasado na sociedade brasileira para governar.
Num PT que tinha na renda mínima defendida pelo Senador Suplicy uma conquista de cidadania e não no PT que usa o Bolsa Família como uma arma para manter reféns os que a recebem.
Num PT que prometeu colocar a Polícia Federal no caso Toninho caso chegasse à presidência e não num PT que nem sequer recebe a viúva que pede justiça sozinha na praça.
Enfim, um partido de outros tempos, um partido com propostas e experiências tão boas que me fizeram apoiá-lo.
Vou, então, continuar discutindo e participando nos limites das minhas possibilidades, esperando que apareça uma alternativa que faça meu coração bater tão feliz quanto num dia de sol em que um antigo político (hoje desaparecido), um ex-operário barbudo e meio sem jeito, tomou posse na presidência da República.