Estava a toa na vida, quando senti um puxão de orelha, vindo do século quinto antes de Cristo:
olhamos o homem alheio às atividades públicas não como alguém que cuida apenas de seus próprios interesses, mas como um inútil[1]
Era Péricles, me chamando de inútil desde Atenas, me fazendo sentir como se estivesse sozinho no centro do Ágora, observado pelos demais cidadãos e sendo repreendido pelo líder que deu seu nome ao século do auge da democracia ateniense.
Certo, as sociedades e a participação política mudaram muito desde o discurso de Péricles, no início da Guerra do Peloponeso. Mas isso não afasta a responsabilidade do cidadão.
Como já comentamos em outros dias aqui em nossa praça, as condições políticas atuais desestimulam a participação, seja institucionalmente ou em movimentos sociais. Até para palpitar aqui nessa praça virtual tem sido chato. Assim, me dediquei nos últimos tempos a cuidar apenas de meus próprios interesses, justificando o olhar severo de Péricles.
É inegável que toda essa mobilização que vejo pela televisão desperta o cidadão que adormeceu em berço esplendido. Bom ver um povo mobilizado, embora tenha sérias dúvidas quanto aos seus resultados. Mas o tão só movimento já é um alento frente à passividade que nos caracteriza. O militante sente comichões cívicas. O observador da história sente preocupações sombrias.
Mas, antes de romper a letargia, ainda que seja para escreve em um blog, sempre surge a pergunta: o que fazer? E uma ainda pior: de que adianta? A tentação da inércia volta.
Aí vem Sêneca, direto de Roma, se senta ao meu lado no banco e também atiça o cidadão:
A carreira militar lhe é proibida? Que ele pretenda as magistraturas. Está ele reduzido à vida particular? Que advogue. O silêncio lhe é imposto? Que dê aos seus concidadãos o apoio mudo de sua presença. Mesmo o acesso ao fórum lhe é perigoso? Que nas residências particulares, nos espetáculos, à mesa, ele se mostre companheiro honesto, amigo fiel, conviva moderado. Ele não pode mais cumprir com seus deveres de cidadão? Restam-lhe os deveres de homem. (...) Adota uma tática análoga: se a sorte te afasta das primeiras classes da República, resiste e ajuda os outros com teus brados; se te apertam a garganta, resiste ainda e auxilia-os por meio de teu silêncio. Jamais um bom cidadão perde seu trabalho: este é ouvido e é visto. Sua fisionomia, seus gestos, sua muda obstinação e seu modo de andar, tudo auxilia.[2]
Então, já que o povo retomou a praça, voltemos à nossa, nem que seja prá ficar sentado no banco dando palpites.
Se quiserem, venham, sentem-se aqui comigo prá ver a banda passar.
Perfeito Fernando,prefeito!!!
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