domingo, 15 de julho de 2012

Democracia, liberdade e fé

Dois momentos significativos a se destacar da reportagem de Rodrigo Vizeu, para a Folha de S. Paulo, sobre a Marcha para Jesus.
Primeiro, a fala do representante da presidenta, o ministro Marcelo Crivella, que foi levado a ser ministro da Pesca talvez por uma leitura equivocada da convocação evangélica para que os apóstolos fossem pescadores de homens. Se serve para melhorar a pescaria ou não, não se sabe, mas um ministério sempre serve para arrumar uma verba aqui, conseguir mais um adepto para a igreja/partido acolá. Enfim, voltemos ao que disse o pastor/pescador/ministro:
Dilma pediu para transmitir votos de que seja uma marcha que celebre a liberdade, a fé e a democracia no Brasil”, teria dito Crivella.
Tirando o fato de a presidenta não querer transmitir votos mas, sim, coletá-los (verbo utilizado sem qualquer trocadilho, pelo amor de deus !! (essa última expressão também não tem significado religioso)) dos evangélicos, se disse isso mesmo revela que não conhece lições de história e política.
De história, porque liberdade e fé nunca se deram muito bem e não foi por causa da primeira, que sempre tolerou a segunda. A fé é que não suporta a liberdade, principalmente dos que não têm fé ou têm outra que não as do fiel, seja ele qual for. Veja a questão da união entre pessoas do mesmo sexo para se ter uma idéia de quanto a fé não respeita a liberdade.
De política, porque democracia e fé são incompatíveis. Democracia, de verdade, não isso que temos hoje, pressupõe diálogo entre concepções diferentes de mundo, na busca de uma verdade que pode estar com o outro. No entanto, como debater com quem se arroga à condição de representante de deus? Por definição, deus está sempre com a razão, pelo que é inútil discutir. Não é só inútil, é pecado. E o pecador deve ser excluído ou perseguido, nunca escutado.
Outro momento interessante é a fala de outro pescador de homens reafirmando a legitimidade da intenção de direcionamento do voto do rebanho evangélico pelos pastores e igrejas.
Não é de hoje que a religião, qualquer que seja sua denominação, quer retomar o poder que lhe foi retirado pela Revolução Francesa e parece que ela se sente agora em condições de conseguir, ironicamente, pelo voto. Se conseguir seu intento, veremos o quanto liberdade e democracia são incompatíveis com a fé.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Nêmesis em São Paulo

No templo de Delfos, duas advertências de Apolo alertam homens e heróis: “Conhece-te a ti mesmo” e “Nada em excesso”.
Alguns heróis ficaram marcados por ultrapassarem a medida estabelecida para os mortais e, com isso, cometerem uma ofensa aos deuses, à ordem universal que define os limites. Chama-se a isto hybris, que significa uma desmesura, um descomedimento causado pelo orgulho.
Essa violação da ordem é punida pela deusa Nêmesis, filha da Noite, que provoca no herói desmedido a cegueira da razão. Tudo que o herói fizer daí em diante se voltará contra ele mesmo até que tudo volte ao seu lugar.
Sem reconhecer seus limites, tomado pela hybris, o herói se excede e Nêmesis se volta contra ele para restaurar a ordem universal.
Tudo isso para falar do comportamento de Lula nas eleições municipais, especialmente a de São Paulo.
Seus oito anos de presidência e a eleição de Dilma parecem ter feito com que Lula se imagine um herói todo poderoso na política brasileira.
Para ficar só na capital paulista, escanteou setores históricos do PT junto com Marta Suplicy, impôs seu candidato que só tem seu apoio como credencial para governar a maior cidade do país e, por fim, por enquanto, apertou a mão de Maluf sufocando mais um pouco de sua biografia anterior à presidência. Uma foto que escancara que não existem mais limites à sua vontade de poder.
 Ele reina. Sua vontade impera. Faz tudo isso porque se julga infalível.
Lula joga tudo para vencer os tucanos em seu próprio ninho. Quer exterminar o pouco que resta de uma oposição que, no final das contas, não consegue representar qualquer ameaça à continuidade do reino nacional petista. É sua obsessão. Parece cego de orgulho. Extrapola todos os limites para satisfazer sua obsessão pessoal contra os tucanos.
Da mesma forma que a eleição paulistana representa uma armadilha para Serra, pode representar Nêmesis para Lula.
Uma derrota, que será vista como pessoal, colocará em xeque sua pretensão de entender mais de política que todo o PT, assim como sua capacidade de eleger quem queira apenas com seu prestígio. Encontrará mais dificuldade, portanto, para impor sua vontade ao partido, para reinar sozinho.
Essa diminuição do poder do herói levará à possibilidade de surgimento de novas lideranças que dividam com ele o palco. O universo político tenderá a retomar sua dinâmica plural, ameaçada pelo herói que ultrapassou as medidas.
Um dos heróis mais famosos cegados por sua hybris foi Narciso, punido exatamente por sua vaidade.
Os velhos gregos entendiam das coisas.