No verbete "Deus" do seu Dicionáro Filosófico, Voltaire compõe um diálogo entre um teólogo e um camponês a respeito da divindade. Num certo ponto, o teólogo pergunta o que o camponês pede a deus em suas orações. Responde o homem:
- Agradeço-lhe todos os bens de que desfruto e também os males de que sofro; mas não lhe peço nada: Ele sabe melhor do que nós aquilo de que carecemos, e não é só por isso: temia pedir-lhe bom tempo enquanto o meu vizinho era muito capaz de lhe estar a pedir chuva.
Interessante resposta que, porventura lida, em muito contribuiria para o aprimoramento da teologia dos "atletas de cristo", os quais pedem ao Senhor a vitória sobre o time adversário. O problema surge quando, dado o alastramento desse tipo de atleta, provavelmente atuará no outro time um outro "atleta de cristo" que lhe pedirá a mesma coisa com sinais trocados. Ora, se o atacante de cristo pede (em algumas seitas mais radicais não será pedido, mas exigência) que o Senhor lhe "honre" (palavras deles) com um gol e o goleiro do time adversário (suponhamos que seja ovelha do mesmo rebanho) pede ao mesmo Senhor que igualmente lhe "honre" com a defesa decisiva, a quem "honrará" o Senhor ??
Difícil dilema da divindade. Haverá ele de, então, verificar qual dos dois fiéis melhor se comportou durante a semana. Em caso de empate, considerando que são ambos bons fiéis, a pesquisa irá continuar por outros períodos passados, até que se apure o critério de desempate que, possivelmente, será o ingresso mais tardio no rebanho dos eleitos.
Haveria uma solução caso admitíssemos a existência de vários deuses, cada um responsável por um rebanho ou time ou partido político, enfim, se fôssemos politeístas. Teríamos, assim, um confronto entre as divindades de cada atleta para definir, ao fim, qual a mais poderosa. Mas evoluímos para a crença em uma divindade única que, por conta do nosso egoísmo, vive às voltas com pedidos contraditórios de seus crentes.
Querendo evitar que a divindade seja submetida a tal trabalho a cada rodada do Brasileirão, Voltaire sugere que os crentes não tentem ao Senhor pedindo isso ou aquilo, às vezes em prejuízo de seu vizinho. Ao invés disso, aconselha que confiem na divindade aceitando como "honra" tanto o gol quanto a defesa. Tanto a vitória quanto a derrota.
Alguém já viu um goleiro levantar a cabeça e o dedo indicador para o céu quanto toma um frango? Mas, e se o gol foi resultado da prece do atacante ?