sábado, 29 de outubro de 2011

Lula: o príncipe sábio

As chamadas classes médias acompanharam o governo Lula com um sentimento crescente de decepção por conta do que foi visto como uma traição ao ideário por tanto tempo pregado por ele e seu partido quando na oposição. Decepção que aumentava a cada nova denúncia de corrupção, a cada nova aliança com as antigas oligarquias regionais e nacionais, a cada afastamento do ideal de eficiência e moralidade.
No entanto, visto sob um outro prisma, com Lula, a política brasileira entrou na era moderna, conduzida pelas mãos de um príncipe maquiavélico.
O Príncipe, de Maquiavel, se insere em um gênero literário denominado “espelho dos príncipes”, que tinha por objetivo ensinar as virtudes que os governantes deveriam possuir para serem bons. Ao contrário do que pode parecer, os parâmetros morais apresentados aos príncipes na era medieval e renascentista não eram oriundos somente da Igreja, mas provinham também de uma antiga tradição de moralistas cívicos, dentre os quais o romano Cícero (103-43 a.c.). De acordo com essa tradição, os príncipes deveriam se conduzir da maneira mais virtuosa possível para alcançarem honra e glória.
O moralismo cívico pautava-se, em primeiro plano, pelas chamadas virtudes cardeais: prudência, justiça, temperança e fortaleza. Estas eram complementadas por outro rol de virtudes, denominadas principescas.
No nosso caso, interessa especialmente uma, classificada entre estas últimas: a honestidade, ou seja, a disposição de manter a palavra dada. Ensina Cícero que é um engano acreditar que uma coisa pode ser moralmente certa sem ser conveniente ou ser conveniente sem ser moralmente certa. Se a honestidade é certa é, também, conveniente.
Maquiavel inaugura a modernidade do pensamento político ao, entre outras coisas, romper com esse esquema de virtudes ensinando, no cerne de O Príncipe, que:
“Um príncipe sábio não pode, pois, nem deve manter-se fiel às suas promessas quando, extinta a causa que o levou a fazê-las, o cumprimento delas lhe traz prejuízos.”
Escândalo entre os moralistas da época de Maquiavel e posteriores, chegando até nossos dias. No seu pensar pré-moderno, o príncipe deve ser um exemplo de todas as virtudes, bom e justo.
Maquiavel, no entanto, explica a razão de seu ensinamento:
“Esse preceito não seria bom se os homens fossem todos bons. Como, porém, são maus e, por isso mesmo, faltariam à palavra que acaso nos dessem, nada impede venhamos a faltar também à nossa.”
No caso do nosso príncipe, é possível argumentar que Lula abandonou as virtudes que imaginávamos que ele e o PT possuíam para conquistar e conservar o Poder. Sem as alianças com as oligarquias encasteladas no Congresso Nacional e nos seus feudos regionais, alianças estas forjadas à base de concessões à corrupção, aparelhamento e clientelismo endêmicos no aparelho de Estado, bem provavelmente teria sido apeado da presidência ou mantido nela sem possuir condições de iniciativa.
Sob certos aspectos, Lula faltou com sua palavra quando comparado seu comportamento real com o prometido e esperado. Fez isso para conservar o Poder. Se o fez aprofundando os vícios que corroem a sociedade brasileira, não cabe aqui analisar. O fato é que, precisando dos “trezentos picaretas” do Congresso, a eles se uniu. A realidade sobrepujou o ideal. Mais maquiavélico impossível, já que a realidade que marca decisivamente o pensamento do florentino:
“Entre como se vive e como se deveria viver há tamanha diferença, que aquele que despreza o que se faz pelo que se deveria fazer aprende antes a trabalhar em prol da sua ruína do que da sua conservação.”
Assim, a modernidade política significa a substituição do ideal pela necessidade; do ideal pelo real. A cidade de Deus de Agostinho, pela cidade dos homens de Maquiavel.
No contexto brasileiro atual, é tentador, fácil e simplista articular o discurso pré-moderno da moralidade, requerendo dos homens públicos que sejam éticos, relegando o interesse próprio face ao interesse social. Mas é impossível retomar a inocência perdida.
Ao invés de esperar que os homens sejam bons, a modernidade parece voltada para as formas pelas quais os homens adquirem e exercem o Poder. Se os homens são maus, que sejam obrigados a agir como se fossem bons por força das instituições. Isso implica modificar o processo eleitoral, as relações Executivo-Legislativo-Judiciário. Fazer com que a corrupção não seja uma alternativa válida de exercício do Poder.
Maquiavel, agora nas lições dadas ao povo em seu quase desconhecido Comentários sobre a Primeira Década de Tito Lívio ensina que:
“os homens só fazem o bem quando é necessário; quando cada um tem a liberdade de agir com abandono e licença, a confusão e a desordem não tardam a se manifestar por toda parte”

domingo, 9 de outubro de 2011

Nobreza Hereditária

Duas notícias me chamaram a atenção na semana que passou.
A primeira dando conta de que Anthony Garotinho (PR) e o ex-prefeito Cesar Maia (DEM) resolveram unir suas forças para derrotar o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Nada que seja surpreendente, ainda que se considere que os dois sempre foram rivas ferrenhos na política carioca. O interessante aqui é que a aliança será selada com a candidatura dos filhos dos Senhores à Prefeitura: o deputado federal Rodrigo Maia, como candidato a prefeito e tendo a deputada estadual Clarissa Garotinho como vice. Se o acordo incluir o casamento dos candidatos teremos dado mais um passo rumo às formas medievais de fazer política.
A segunda foi o assédio (eleitoral/eleitoreiro) sofrido por Everson Silva, 26, mais conhecido como Tirulipa, por parte de três dos mais respeitáves partidos do país, PSB, PRB e PR, para que se candidate a vereador em Fortaleza-CE. Everson tem sido cobiçado por suas idéias avançadas sobre cultura e por seu material genético, cuja metade provém de seu pai, o ícone do Parlamento: Francisco Everardo Oliveira Silva (PR-SP), o Tiririca.
O que une as duas notícias é representarem mais etapa do caminho da casta política brasileira rumo à nobreza tipo Antigo Regime. Filhos ocupam o lugar dos pais que ocuparam o lugar dos seus queridos avós, sem qualquer outra indicação que não seja serem da família. Honras e privilégios  transmitidos hereditariamente, num arremedo de democracia.
Os donos do poder portam-se como nobres controlando fóruns diferenciados, oportunidades, nepotismo, inimputabilidade, etc, etc.... Eternizam-se por meio das urnas, da justiça, da cumplicidade dos seus pares e, agora, da hereditariedade.

sábado, 1 de outubro de 2011

Tradução do Tema

A frase que serve de tema ao blog: Homo sum, et nihil humani a me alienum puto é de uma peça de Publius Terentius Afer (195/185–159 BC) e significa, numa das possíveis traduções: Sou Homem, e nada daquilo que diz respeito à humanidade deve ser estranho a mim.
O sentido dessa frase nesse blog pode ser dado pelo seguinte trecho da Oração sobre a Dignidade do Homem, de Giovanni Pico della Mirandola (1463/1494):

        "Ó Adão, não te demos nem um lugar determinado, nem um aspecto que te seja próprio, nem tarefa alguma específica, a fim de que obtenhas e possuas aquele lugar, aquele aspecto, aquela tarefa que tu seguramente desejares, tudo segundo o teu parecer e a tua decisão. A natureza bem definida dos outros seres é refreada por leis por nós prescritas. Tu, pelo contrário, não constrangido por nenhuma limitação, determiná-la-ás para ti, segundo o teu arbítrio, a cujo poder te entreguei. Coloquei-te no meio do mundo para que daí possas olhar melhor tudo o que há no mundo. Não te fizemos celeste nem terreno, nem mortal nem imortal, a fim de que tu, árbitro e soberano artífice de ti mesmo, te plasmasses e te informasses, na forma que tivesses seguramente escolhido. Poderás degenerar até aos seres que são as bestas, poderás regenerar-te até às realidades superiores que são divinas, por decisão do teu ânimo".

Assim é que nossas discussões aqui terão o Homem como personagem principal. Homem capaz de construir catedrais e campos de concentração. De orar e matar. De criar e destruir. Colocado sempre entre o bem e o mal e sem saber, no entanto, o que é o bem e o que é o mal. Condenado a responder às suas próprias perguntas e vivendo de acordo com suas respostas.
Por isso, aqui não há condenação ou absolvição. Apenas olhamos o drama e dele tomamos parte.
E, para quem quer colocar deus na história, é bom lembrar que o mesmo deus fez Hitler e São Francisco de Assis. Ambos tirados do mesmo barro.
Ou não ?