segunda-feira, 5 de maio de 2014

A Cristianização de Dilma

Calma, amigos! Não estou a falar da conversão da presidente/candidata à religião cristã, apesar das repetidas profissões de fé que ela fará durante a campanha em comícios, vídeos e igrejas. A mim, pelo menos, pouco importa a religião dessa candidata ou de qualquer outro. Como diria Deng Xiao Ping, “não importa a cor do gato, desde que pegue os ratos”. E como tem rato!
Cristianizar tem um sentido peculiar no dicionário político brasileiro e significa um apoio formal por parte da cúpula dos partidos que não se traduz, no entanto, em trabalho efetivo em favor do candidato por parte das bases..
O termo nasceu na campanha presidencial de 1950, que opunha o brigadeiro Eduardo Gomes (UDN), Getulio Vargas (PTB) e Cristiano Machado (PSD). Embora Cristiano tivesse o apoio formal do PSD nacional, os caciques locais do partido trabalharam efetivamente em favor de Getulio Vargas. Getulio venceu a eleição e Cristiano teve um desempenho pífio.
Desde então, vários foram os candidatos cristianizados. O mais famoso foi Ulisses Guimarães, cristianizado na primeira eleição direta pós ditadura, quando o PMDB deu-lhe apoio formal mas trabalhou efetivamente pelos mais diversos candidatos com chance de vencer.
Essa é a chave da cristianização: a possibilidade de vencer.
Os recentes movimentos políticos parecem indicar um início de cristianização de Dilma, na onda das crises econômica/política/policial/energética/policial que assombra a candidatura da presidente.
A face mais visível é o movimento “Volta Lula” (talvez seja apenas coincidência com a participação da candidatura de Getulio em 1950, que tinha slogan semelhante).
O líder do PR na Câmara Federal, Bernardo Santana, lançou o movimento com o gesto simbólico de trocar a foto de Dilma em seu gabinete pelo de Lula (ninguém vai lembrar da marchinha getulista “Bota o retrato do velho, bota no mesmo lugar....). Ainda mais significativa foi a frase do líder: “Ao apoiar o ‘Volta, Lula’, deixei claro que o partido apoiará Dilma até deixar de apoiar”. E completou na lógica que comanda a política fisiológica: “E não precisa necessariamente largar o governo nem devolver os cargos” *.
E, embora o PR tenha largado na frente, o maior perigo vem do PMDB, o eterno partido governista.
Some-se a isso o “sincericídio” cometido pela presidente-candidata ao dizer que seria candidata com ou sem a base aliada, frase que faz crer que a candidatura Dilma também já percebe que os aliados estão escapando por entre os dedos.
Essa parece a ponta de um iceberg que pode fazer naufragar o barco da presidente-candidata. Os apertos de mão nas convenções selam acordos com as cúpulas partidárias cujas bases irão fazer campanha para outros candidatos. E, na política brasileira, o apoio de um líder comunitário ou de um deputado popular vale mais que a aliança das legendas.
É sabido que a presidente carrega consigo a antipatia da classe política, ao contrário de Lula. Para nossos políticos, carregar uma candidatura cheia de problemas e ainda não gostando da candidata, só com uma boa chance de vencer a eleição. Por enquanto, Dilma ainda é uma aposta segura. Mas, até quando?
Convertida ou não, Dilma corre um sério risco de ser cristianizada.

*As citações em itálico foram retiradas de uma postagem de Ricardo Noblat em seu blog, denominada "A política como ela é". Aproveito para recomendar o blog do Noblat.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Dos Frutos da Discórdia

Na mitologia grega, a guerra de Tróia teria começado por causa do famoso “pomo da discórdia”, ou seja, de uma maçã que Eris, a discórdia, jogou entre Hera, Atena e Afrodite com a inscrição de que era endereçada “à mais bela”. É de se imaginar a confusão que aconteceu.
Já a mitologia hebraica atribui à maçã uma série de problemas ainda maiores.
Parece que o Brasil, por meio de dois de seus mais destacados candidatos a mitos, acaba de contribuir para a cultura universal ao criar a “banana da discórdia”.
O gesto do Daniel Alves, ao comer a fruta arremessada à arena (hoje não existem mais campos de futebol, mas “arenas”. Pelo tipo de futebol que se pratica por aqui, até acho o nome mais adequado), pode até ser compreendido sob o argumento de que estava de cabeça quente e agiu num impulso. Mas não deixa de ser uma submissão à agressão racista que sofreu.
Mas a mensagem do Neymar (nosso mais badalado “craque”, se é o melhor é outra discussão), “somos todos macacos” me parece ser uma bobagem sem tamanho. Ao fazê-lo, deu razão aos racistas e chamou sobre si o que acredito ser uma das piores ofensas no arsenal desse tipo de gente. É como se admitisse o ataque. É como se dissesse: já que não se pode vencê-los, junte-se a eles.
E o pior. Não chamou somente sobre si, mas sobre todos aqueles que, a partir de agora, poderão ser assim agredidos sob a desculpa de que “o Neymar mesmo disse”. Não se trata apenas da agressão ao Daniel Alves. Mas de uma agressão a um sem número de pessoas que são muito mais expostas e frágeis. E me parece que a maioria delas não concorda com o Neymar.
Imagino que o torcedor que arremessou a malfadada fruta tropical (que deve custar bem caro na Espanha) possa se defender da seguinte maneira: “mas se um deles comeu e o outro admitiu, que fiz eu de errado? Foi até mesmo uma forma de homenagem, nunca racismo!”
O racismo é um tema muito delicado e sério para ser tratado com tamanha leviandade. Ao que parece, a manifestação do Neymar teria sido até mesmo criada por uma agência de publicidade. Ou seja, mais um golpe publicitário oportunista em que o protagonista que recita um texto sem refletir sobre suas conseqüências, sobre os efeitos que podem produzir naqueles que ouvem.
Ao banalizar esse tipo de agressão ou tentar protestar contra eles com frases de efeito duvidoso, os gestos dos nossos amados jogadores podem significar uma porta aberta para outras piores. Mas eles não têm culpa de desconhecer a história dos países onde vivem ou de onde vieram. Fechar a porta ao mal é mais difícil do que deixá-la sempre fechada.


sexta-feira, 21 de março de 2014

Uma Bolsa de Outros Valores

Bem, já que o último post fez tanto sucesso que foi discutido em outra praça, vamos voltar ao tema, até porque parece que eu não deixei clara minha opinião sobre o bolsa-família.
Em primeiro lugar, não sou contra nem acho que deva ser extinto. Principalmente porque é uma das formas mais eficientes de realizar a tão decantada e tão evitada distribuição de renda. E nossos índices de desigualdade são pornográficos. É um tipo inicial de renda mínima de cidadania, por tanto tempo defendida pelo hoje senador Suplicy, e pela qual cada brasileiro deveria ter um mínimo de renda que lhe garantisse uma sobrevivência digna.
Dito isso, acho que podemos analisar esse programa sob diversos aspectos.
Socialmente, os recursos permitem acesso a bens de consumo de primeira necessidade, garantindo um nível mínimo de sobrevivência E esse acesso é feito respeitando a dignidade de quem recebe, pois coloca o recurso diretamente em suas mãos, sem ter que passar pelo deputado, pelo prefeito, pelo vereador. E ainda respeita suas preferências: cada um gasta como quer.
Economicamente, ajuda a desenvolver as atividades locais, uma vez que os gastos são feitos no local onde os beneficiários vivem, movimentando o comércio, a agricultura e a indústria, com potencial para gerar um ciclo virtuoso de crescimento econômico.
Pesquisas mostram, ainda, a melhoria da freqüência e do desempenho escolar de crianças cuja família é beneficiada, o que irá repercutir em melhores oportunidades.
Uma crítica freqüente diz que as pessoas deixam de trabalhar para viver apenas “da ajuda do governo”. Duas observações a respeito. Uma, se uma pessoa tem ofertas de salário tão baixas que prefere viver do auxílio, é porque o salário oferecido por seu trabalho é mesmo indigno. Outra, se alguém quiser mesmo viver do auxílio, é uma opção econômica como qualquer outra. Responda: qual o valor necessário para que você deixe de trabalhar para viver de renda? Porquê um beneficiário não pode fazer a mesma escolha? Porque é pobre? Porque o dinheiro é tirado dos nossos impostos? Acho que é uma das melhores destinações que ele pode ter, pensando pragmaticamente no quanto a desigualdade de renda prejudica o Brasil.
O grande calcanhar de Aquiles (para manter a tendência a citações dos clássicos desse blog) do programa é sua repercussão política, na medida em que é gritante a tendência de voto em favor do governo nas regiões mais pobres e, consequentemente, com maior índice de favorecidos. Há um claro e inegável efeito de indução de voto no governo.
Bem, em primeiro lugar, acho mais que natural que as pessoas votem em quem os beneficie. Reelegemos FHC por causa da aura de criador do Real. Porque as pessoas que ganham o bolsa-família não podem votar no Lula por causa dela? Também é uma escolha racional como qualquer outra. Esse comportamento não é novo nem exclusivo, com a diferença de que antes as pessoas votavam em troca de dentaduras, um pé de botina (o outro só se o candidato ganhasse), camisas para o time de futebol. Pelo menos, agora, o voto é dado em troca de um programa que produz resultados efetivos e duradouros, promovendo o entorno social e economicamente.
Do ponto de vista da oposição, resta encontrar uma alternativa tão boa ou, então, admitir os méritos do programa e jurar de pés juntos que os programas continuarão caso ganhem. Mas, as dificuldades da oposição não afetam as qualidades e defeitos do programa em si.
Esse impasse da oposição revela que, efetivamente, os ganhos promovidos pelos programas de distribuição de renda estão definitivamente incorporados ao panorama sócio-político. Dificilmente algum candidato conseguirá os votos se defender sua extinção. Se fizer isso depois de eleito, enfrentará resistências de grande potencial explosivo.
Acredito que o programa pode ser aperfeiçoado até se transformar, efetivamente, numa renda mínima de cidadania. E a neutralização do seu efeito político será uma conseqüência de uma consciência cidadã de que os recursos disponibilizados pelo não decorrem de um favor do mandatário de plantão, mas um direito à participação na riqueza nacional que é um direito de todo brasileiro pelo simples fato de ser um cidadão.
Puxa, parece um discurso!!!

segunda-feira, 17 de março de 2014

De Votos e Cabrestos

Um grande amigo passou por mim em uma outra praça e comentou sobre uma ideia que vem rolando pelas praças e que consistiria em retirar o direito de voto dos que recebem bolsa-família ou outros auxílios do governo. Seria uma iniciativa contra o que se chama voto de cabresto.
Na hora contestei em nome da democracia. Como lhe disse, temos que tirar o cabresto, não o voto.
Acontece que essa não é uma ideia nova. Era mesmo praticada pelos atenienses em sua decantada democracia. E foi defendida por vários pensadores políticos, que entendiam que a República somente seria viável com o voto censitário, ou seja, baseado na renda ou na propriedade. Essa forma de organização e até mesmo o debate a respeito só se tornaram tabu depois das Revoluções Francesa e Russa e das conquistas sociais e políticas do século passado. A democracia, hoje, é impensável sem o voto universal.
De toda a forma, a noção de que somente os proprietários deveriam ter direito à participação política, não nasce das noções modernas de segregação social, mas da antiga tentativa de evitar que os juízos políticos sejam influenciados pelo interesse ou necessidade material.
A participação política requer o exercício do diálogo e do raciocínio, capacidades humanas por excelência. Para propor ou avaliar uma matéria ligada ao bem comum, ou seja, à política, é de se esperar que os indivíduos atuem de forma autônoma, de acordo com suas concepções do que seja aquele bem comum. Não se espera uniformidade, mas razão empregada sem os constrangimentos da dependência.
As facções e clientelas formadas no fim da República Romana a partir da influência dos grandes senhores de terras e exércitos levaram ao Império e sempre foram consideradas ameaças sérias à República desde então. Integrados em clientelas ligadas a algum senhor, os indivíduos já não julgam de acordo com suas avaliações, mas de acordo com os interesses de seus senhores.
No Brasil, o chamado voto de cabresto tem uma longa história, podendo ser identificado em todos os regimes e em todas as esferas de governo. É um dos principais vícios de nosso sistema político e não tem aparência de que vai acabar. Isso porque praticamente todo o sistema está baseado na influência e nas clientelas.
Não é só o Bolsa Família ou outros programas de distribuição de renda pelo Governo Central. A dependência de parlamentares e executivos de Estados e Municípios em relação às verbas controladas pelo Executivo Central também leva ao voto de cabresto e distorce a democracia brasileira, sustentando o atual modelo. Isso sem falar nas empresas que dependem das encomendas governamentais para sobreviver e que, por seu turno, cooptam representantes pela via do financiamento de campanha.
Nascido da dependência, o fim do voto de cabresto requer uma mudança que vai além do sistema político e eleitoral, requerendo mesmo uma nova organização social e econômica que diminua as desigualdades que separam os brasileiros, dando aos que têm poder de voto, eleitores e representantes, a independência necessária para exercê-lo em nome do bem comum e não de acordo com os donos do dinheiro. 
Muitos são os beneficiários das desigualdades e do voto de cabresto e, muitos deles, estão entrincheirados nas posições sociais capazes de promover as mudanças necessárias. Mas, se são beneficiários dos próprios mecanismos que deveriam reformar, porquê iriam fazê-lo?
Como se vê, é um círculo vicioso.

Mas ainda continuo a achar que retirar o cabresto é melhor que retirar o voto.

quarta-feira, 5 de março de 2014

De Volta

    Estou de volta para a nossa Praça. Não sei por quanto tempo, mas estou por aqui para compartilhar com vocês e comigo mesmo, algumas fofocas, palpites, gracinhas e coisas sérias também. 
   Nossa praça, está um tanto abandonada, eu reconheço. Mas sempre é possível voltar a ser um lugar de reflexão num banco, de música num coreto ou de discurso sobre uma caixa de fósforos.
   Minha última postagem é de julho de 2013. Tanta coisa aconteceu desde então, dentro e fora de mim. Vou tentar dividir minhas viagens internas e externas com quem estiver passando aqui pela praça.

    Portanto, vocês estão avisados do perigo que correm ao passar por aqui ! Não digam que eu não avisei !

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Notícias de Versailles

Cortesãos ouviram o Rei reclamar de que vândalos haviam se infiltrado nas recentes manifestações pacíficas:

“Vocês viram o estado em que deixaram a Bastilha?”

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Renan, o Legítimo

O senador Renan Calheiros, eleito por Alagoas, às vezes tem sua legitimidade questionada nas ruas ou nesse novo Àgora democrático que são as redes sociais. Alguém se lembra do abaixo-assinado produzido para que ele saísse da presidência do Senado? Ele também não deve se lembrar, dada a parisiense indiferença com que tratou a iniciativa dos impotentes e indignados cidadãos.
No entanto, Renan é um representante duplamente legítimo da nossa democracia.
Primeiro, foi legitimamente eleito pelo povo de seu Estado para representá-lo no Senado Federal. Por legitimamente entenda-se dentro das regras e pelo voto livre dos eleitores. Livre aqui é tem uma pitada de ironia. Porém, é um voto tão válido quanto os votos de mineiros, goianos ou paulistas.
Segundo, é legítimo representante da nobreza política que controla nossa, digamos, República. Pressionado pelo povo às portas do Congresso, apressou-se a legislar para agradar a turba. Na semana seguinte, já estava aboletado irregularmente em aviões públicos.
Dentre suas propostas sacadas do bolso do colete para adoçar a boca dos manifestantes estaria o passe livre de ônibus, amplo, geral e irrestrito. Até nisso representa a nossa aristocracia, já que não se preocupa com o quanto suas ideias representarão em gasto de dinheiro público. Ora, se é público, não é de ninguém, pode-se fazer dele o que bem se entende, diz a regra de ouro da aristocracia.
Porém, Renan não ouve a multidão quando esta pede sua renúncia.
Mas, por quê haveria de ouvir, de escutar, e pior: de atendê-la? Afinal de contas, é um representante tão legítimo quanto qualquer outro. Só porque não gostam dele não têm o direito de cassar a expressão da vontade de seus eleitores. Até porque o tipo de gente que é eleito em outros Estados não se diferencia muito dele.
Renan traz em si uma das maiores contradições da democracia. O representante da aristocracia política legitimamente eleito não pode ser apeado do poder sem o rompimento da própria ordem democrática, tomando por certo que não será derrubado por seus pares, como se viu no caso da multiplicação milagrosa do gado de Renan. Ou seja, faça o que fizer, continuará ali, a desprezar a multidão que pede sua saída.
E o que a multidão pode fazer contra ele? Nada. Pelo menos não dentro das regras democráticas, a não ser que se mude para Alagoas e vote em massa contra sua eleição da próxima vez. Caso contrário, como diria o Velho Lobo: terão que engoli-lo. Isso porque os eleitores que já estão por lá, não se mostram disposto a abandoná-lo nas urnas, seja por que motivo for.
Mas Renan não é o único. A maioria dos representantes legitimamente eleitos nas urnas sofre uma crescente deterioração de legitimidade nas ruas. Historicamente, nos momentos em que o acúmulo de ilegitimidade dos representantes legítimos atinge níveis críticos, o desfecho normalmente acontece fora das regras democráticas. É o velho jogo político entre legitimidade e violência.

Quem se habilita? Quem tem força suficiente? As ruas? Os chefes do Executivo e do Judiciário já se assanharam. Ou ninguém?