domingo, 12 de fevereiro de 2017

Uma Nova Facção

Hoje vamos deixar nosso Donald de lado e vamos voltar para nossos tristes trópicos, onde um belo país vê seu Estado desmoronar sob o poder de facções políticas, criminosas e, agora, policiais.
Teoricamente, o Estado se baseia no monopólio da força e da tributação, um reforçando o outro. Esse motim demonstra que o Estado, principalmente os sub-nacionais, não têm mais ascendência sobre suas tropas armadas e estão à mercê de suas reivindicações. Se essas reivindicações são justas ou injustas não vem ao caso, o problema é que os policiais demonstram que não se sentem subordinados aos governos eleitos. Fazem o que quiserem com as armas que lhes foram confiadas pela Constituição. Inclusive, guardá-las para impor suas vontades.
Nessa situação, mais uma facção enfrenta um Estado sem condições financeiras, materiais e morais, de reagir. Continuando firmes e espalhando o motim para outras unidades da federação, conseguirão colocar o Estado de joelhos. Não se enganem, as outras facções de policiais estão apenas esperando o resultado do motim no Espírito Santo para espetarem seus governadores na parede.
Três outras fotografias brasileiras se revelam nesse caso.
Primeira, a desfaçatez da desculpa para o aquartelamento dos amotinados. Não estão em greve, só não podem sair porque as mulheres os impedem. Estampam na cara da sociedade seu desprezo pela lei que os impede de entrar em greve. Cinismo a que já estamos acostumados em outras esferas. Quero crer que, fossem mulheres de presos, por exemplo, já teria sido tiradas da frente dos quartéis.
Segunda, a facilidade com que a população se pôs a aproveitar a falta de policiamento para soltarem as amarras que os impedem de cometer os mais diversos tipos de crime. Mostra uma sociedade que só é contida pela força bruta, não demonstrando resquícios de valores éticos que impediriam os crimes mesmo sem a presença da polícia.
Terceira, o Exército vem ganhando cada vez mais legitimidade perante a sociedade como a resposta para nossas crises. Enquanto estiverem substituindo o aparelho policial no patrulhamento das ruas para garantir a segurança, vá lá. Quando alguém tiver a ideia de utilizá-lo para substituir o sistema político com a justificativa de combater a corrupção generalizada, o problema vai ser muito maior. A ideia já existe, ganha força, mas ainda não tem legitimidade suficiente.
Disse John Hamilton, no Artigo Federalista nº VIII, publicado por volta de 1787:

A contínua necessidade de seus serviços amplia a importância do soldado, degradando na mesma medida a situação do cidadão. A condição militar eleva-se acima do civil. Os habitantes dos territórios, muitas vezes o próprio teatro da guerra, são inevitavelmente sujeitos a frequentes violações de seus direitos, que servem para enfraquecer sua consciência dos mesmos; gradualmente, o povo é levado a considerar os soldados não só como seus protetores, mas como seus superiores. Daí a considerá-los sues chefes o caminho não é longo nem difícil (…).

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Donald e o povo

Donald, nosso personagem preferido, já mostrou as credenciais para as instituições americanas em seu discurso de abertura. Vejam o que disse nosso querido:
A cerimônia de hoje, no entanto, tem um significado muito especial porque hoje não estamos apenas transmitindo o poder de uma administração a outra ou de um partido ao outro, mas estamos transferindo o poder de Washington, D.C., e o devolvendo a vocês, o povo.
O que realmente importa não é qual partido controla nosso governo, mas se nosso governo é controlado pelo povo.
O ditador e o populista sempre falam em nome do povo e não das instituições e partidos. Por uma razão muito simples: o povo não ter rosto, não tem opinião. Ou, o que dá no mesmo, tem muitos rostos, tem muitas opiniões. Nessas condições, o líder autoritário é o rosto do povo, é seu porta-voz. Assim, pode falar o que quiser e dizer que fala em nome do povo.
Partidos e instituições, pelo contrário, têm opiniões identificáveis, têm rostos conhecidos, têm comportamentos controláveis. Não se pode dizer que, por exemplo, o Partido Democrata tenha opiniões restritivas quanto à imigração. Da mesma forma, não se pode dizer que o Obama defenda tais restrições. O mesmo se diga da Suprema Corte. Mas, o líder pode dizer que o “povo” não quer imigrantes. Quem vai dizer que não? A imprensa? Ora, o povo sabe que a imprensa mente para defender os políticos tradicionais.
Agora, imaginem quando, por exemplo, a Suprema Corte, considere alguma medida do nosso Donald inconstitucional. São juízes que não foram eleitos pelo “povo”. Será que eles podem contrariar um governante eleito? Afinal, todo poder emana do povo. Mas o líder terá agido contra a lei. Ora, a lei também emana do povo!!
Imaginem se a coisa fique tão feia que o Congresso instaure um processo de impedimento. Como é que eles ousam voltar-se contra o representante máximo do povo? Sua voz diretamente eleita?
E por aí vai, num prognóstico de confronto entre poderes que pode abalar todas as instituições americanas, instituições que têm sido a principal inspiração das democracias ocidentais.
É por isso que o líder autoritário fala em nome do “povo”. Porque o que o “povo” quer só ele sabe e só ele representa. Os que a ele se opõem, estão contra o “povo”.

Será interessante acompanhar como a democracia americana lidará com um líder autoritário e populista nos moldes que infelicita a América Latina há séculos.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Começando antes da hora

O fim do mundo como conhecemos começa amanhã, com a posse do nosso querido Donald. Por falar nisso, vocês já notaram como ele tem a personalidade e a imagem parecida com o homônimo criado por Walt Disney?
Mas, a velocidade com que o mundo acaba no Brasil é impressionante. Nem começamos o nosso diário e bandos correm soltos dentro de um, dito, presídio, ameaçando uns aos outros de morte por métodos tão medievais quanto as condições em que tentam sobreviver.
A falta de condições da polícia de, primeiro, controlar aquele território, que hoje pode ser denominado “terra de ninguém”, e, segundo, retomá-lo, é a mostra da falência do Estado brasileiro. Se homens armados podem dominar um território, dentro ou fora dos presídios (como diz o eufemismo para o PCC), e nele fazer o que lhes dê na telha (também usada como arma), e o Estado não consegue impedir, isso é prova cabal de que o Estado brasileiro já não possui o monopólio do uso da força.
Desse ponto de vista, acho oportuna a chamada do Exército. Mas não apenas para revistar celas a procura de armas e celulares que não deveriam estar lá. Acho que é hora de reconhecermos que vivemos em uma guerra civil e tomarmos as providências necessárias para que o Estado passe a ter o monopólio do uso da força no território nacional, o que é uma definição mínima de Estado afinal.
Antes que me apedrejem, não estou apoiando as teses de volta dos militares ao governo. É só uma questão de quem domina um território e nele impõe a lei sob ameça do uso da força. 
O Estado exerce esse domínio por meios legítimos, aplicando leis votadas por parlamentos legítimos (tá bom, estamos falando em teoria, sem levar em conta parlamentares que tomam posse na cadeia ou para lá vão depois de empossados). Os bandos armados dominam territórios e ali aplicam suas leis por meio violentos ilegítimos. 
Nesses territórios há uma exclusão da legitimidade do Estado, é como se fosse um outro país. São esses territórios que precisam ser retomados, se preciso, a força.
Parece que as polícias não conseguem. Não sei se o Exército vai conseguir.


P.S.: E ainda me morre o Teori. O Brasil é um caso de feitiço.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Diário do Fim do Mundo

Caríssimos possíveis leitores, estou de volta à Praça. Vamos ver até quando perdura essa volta. A vontade surgiu ao perceber que 2017 será o fim do mundo como nós o conhecemos. São várias as razões:

a) o “governo” Donald Trump;

b) o domínio do ditador Putin no jogo internacional de xadrez entre as nações;

c) a desestabilização da União Europeia pelos dois acima, num momento de eleições na França e na Alemanha;

d) as “mega” delações das empreiteiras que podem desestabilizar o “governo” Temer;

e) o lançamento da candidatura Lula, acirrando os ânimos e misturando política com justiça, como todo condotieri faz;

f) o aprofundamento da estagnação, misturando os dois fatores anteriores;

g) a consolidação de uma China imperialista e um Irã de volta ao jogo explícito;

h) o colapso acelerado do meio ambiente;

i) o governo das facções criminosas (vejam que aqui governo não tem aspas);

e) o estilo do Tite na Seleção (fator positivo, mas muda o mundo que conhecemos depois da Copa de 1986);

f) possibilidade de o Palmeiras ser bi-campeão brasileiro e campeão da Libertadores.

Se não bastasse tudo isso, ainda fico sabendo que Matteo Tafuri, chamado de “Nostradamus italiano”, produziu a seguinte quadrinha:

Salento, de palmeiras ao vento sul moderado
Dois dias de neve, dois relâmpagos no céu
Sei que o mundo acaba,
mas não sentirei saudades

E não é que nos dias 08 e 09 de janeiro nevou naquela cidade, numa região conhecida como o Caribe Italiano?
Depois dessa, achei que iria precisar escrever, nem que fosse para tentar achar um meio de passar pelo que está por vir.

Alguém me acompanha?

sexta-feira, 27 de março de 2015

Carta aos meus Amigos Tucanos

Caríssimos,

conta a história que Catão, ao se ver diante de César e Pompeu, cuja disputa pelo poder absoluto levaria à destruição da República Romana, teria dito:

Sei de quem devo correr, só não sei para onde.

Essa é a minha situação política hoje: sei de quem devo correr, só não sei para onde.
E o PSDB tem me oferecido poucas oportunidades de abrigo.
Além das razões políticas, sociais e econômicas que me levaram a votar no PT em três eleições presidenciais, os outros motivos me foram dados pelo próprio PSDB.
Serra e Alckmin representam, na minha opinião, o que há de mais representativo do pensamento elitista e conservador que há no Brasil e, especialmente, em São Paulo. O Serra ainda tem um pouco de lustro político-acadêmico pelo sua história. Mas, o Geraldo, como um infeliz marketeiro tentou apelidá-lo para disfarçar o sobrenome e a ideologia, é uma nulidade, uma mediocridade exemplar.
Mas, vocês podem me perguntar, você não votou nesses mesmos nomes para o governo paulista.
Votei. Não por eles, mas, apesar deles. Tive sempre o único propósito de não permitir que o PT, governando São Paulo, venha a consolidar quase que irremediavelmente, sua hegemonia sobre o Brasil. Isso tem dado certo, mas meus votos continuam a sair dolorosamente.
Quanto à última eleição, votei no Aécio também numa tentativa de interromper o domínio incompetente e inconsequente do PT. Como disse na carta aos petistas, não dava mais para votar neles.
O PSDB parou no tempo e não consegue formular uma proposta que tenha a mínima credibilidade para confrontar o PT. Parece que a estabilização promovida pelo FHC congelou também o partido.
Veja o caso do Bolsa Família. Vocês não conseguem nem convencer que irão mantê-la, nem apresentar uma alternativa melhor.
As análises sócio-políticas do FHC, por mais corretas que estejam, não se prestam para vencer eleições. Vocês precisam entender que a massa que vota no PT o faz porque, bem ou mal, o governo lhes dá o que comer e uma perspectiva de sair da miséria, coisa que a nossa elite nunca conseguiu fazer, a não ser em forma de caridade ou de ajuda de emergência.
Diante das grandes transformações pelas quais passou o país, o PSDB precisa se reinventar como um verdadeiro partido social-democrata e formular uma proposta para o Brasil que não tenha a cara ultrapassada da elite paulista tradicional.
Caso contrário, estará fadado a ser, para mim ao menos, uma simples opção anti-PT, na falta de outra melhor. E vocês viram o estrago causado pela candidatura do PSB.
E, antes que eu me esqueça, acho importante que o PSDB esteja nas manifestações protestando contra tudo o que esse governo representa. Mas, como diz minha mãe, cuidado com as companhias de vôo.
Cuidado com esses grupos radicais da direita. O ninho de vocês não é esse. Vocês têm sangue democrata (não do DEM, pelo amor de deus !!) nas veias.
Afastem-se dos grupos que defendem a manutenção das relações de subordinação social e política do povo brasileiro. Não há como reconstruir o paraíso da classe dominante. Não sujem o bico com essa fruta envenenada.
E, por fim, qualquer movimento de depor a presidente sem que seja pelos caminhos legais, por meio de qualquer golpe, nascido no Legislativo ou na caserna, fará com que eu passe a defender esse governo, apesar de tudo o que ele é.
Não façam isso comigo!!!


quinta-feira, 12 de março de 2015

Carta aos Meus Amigos Petistas

Caríssimos,

no momento em que retorno à praça, momento grave para o Brasil, preciso começar falando com vocês, em respeito às suas histórias, militâncias e convicções.
Continuamos amigos, apesar de divergirmos em algumas coisas. Mas, aprendemos em Minas, que política não se faz com o fígado e a melhor coisa para se fazer com amigos é discutir política.
Vocês sabem que eu nunca fui petista, pelo contrário, sempre me considerei um liberal na política, talvez nossa maior divergência. Não obstante, como vocês sabem, sempre fui profundamente indignado com nossas condições de injustiça social, econômica e política que se perpetuam na história.
Pois bem, esse perfil me levou a votar com vocês (tenho até uma estrelinha de lapela, lembram dela?) nas três primeiras eleições que o PT ganhou. 
Acho que se eu expuser o que o PT representava para mim em cada uma delas, vocês compreenderão o que quero dizer:


I – no primeiro Lula:
1 – Ética e uma nova forma de fazer política
2 – Distribuição de Renda/Justiça Social
3 – Desenvolvimento Econômico e Crescimento

II – no segundo Lula:
1 - Distribuição de Renda/Justiça Social
2 – Desenvolvimento Econômico e Crescimento

III – na primeira Dilma:
1 - Distribuição de Renda/Justiça Social

Na segunda Dilma não consegui mais. E não porque as alternativas me agradassem. Mas porque um segundo mandato Dilma não representaria mais nada para mim.
Com efeito, perdida a bandeira da ética (“todo mundo faz assim”) e comprometidas as bases para o crescimento e o desenvolvimento por incompetência ou populismo, a distribuição de renda e a justiça social não tem mais bases de sustentação.
Como podem ver, à medida que foram se sucedendo os governos petistas, fui me afastando cada vez mais. Acho que não fui eu quem mudou.
Hoje, no deserto político em que estamos, confesso que gostaria de votar novamente no PT.
Mas num PT que denunciava os 300 picaretas do Congresso e não o PT que se juntou a eles para mergulhar no balcão de negócios feitos com dinheiro roubado ao Estado brasileiro.
Num PT que denunciou a compra de votos para a aprovação da reeleição de FHC, não num PT que usou dinheiro de caixa-dois e vindo de propinas nas estatais para financiar suas campanhas.
Num PT que combatia Sarney e que ajudou a derrubar Collor e não no PT que se aliou a eles e ao que há de mais atrasado na sociedade brasileira para governar.
Num PT que tinha na renda mínima defendida pelo Senador Suplicy uma conquista de cidadania e não no PT que usa o Bolsa Família como uma arma para manter reféns os que a recebem.
Num PT que prometeu colocar a Polícia Federal no caso Toninho caso chegasse à presidência e não num PT que nem sequer recebe a viúva que pede justiça sozinha na praça.
Enfim, um partido de outros tempos, um partido com propostas e experiências tão boas que me fizeram apoiá-lo.
Vou, então, continuar discutindo e participando nos limites das minhas possibilidades, esperando que apareça uma alternativa que faça meu coração bater tão feliz quanto num dia de sol em que um antigo político (hoje desaparecido), um ex-operário barbudo e meio sem jeito, tomou posse na presidência da República.

sábado, 27 de setembro de 2014

Intolerância

O Brasil, acompanhando uma tendência mundial, vem desmentindo a imagem do homem cordial e tolerante que cultivávamos em nossa mitologia social. Estamos revelando nossa face mais violenta e intolerante, face essa que sempre foi mantida encoberta, mesmo nos momentos autoritários.
O que se vê nos campos de futebol, nas campanhas políticas, nas pregações religiosas é cada vez mais o repúdio ao outro, ao que pensa diferente, ao que crê em outros deuses, ao que veste a camisa de outro time. E o repúdio vai do exorcismo, da calúnia até o assassinato.
Não é possível suportar o outro porque ele é o sinal permanente de um outro modo de existir.
Alguns fatores alimentam a intolerância brasileira: a disputa pelos fiéis entre católicos e evangélicos e estes entre si; a falta de perspectiva da oposição política vir a ocupar o poder; a falta de pudor dos atuais governantes em lançar mão de todas as armas (legais, ilegais, legítimas, ilegítimas) para se conservar no poder e calar a oposição; a incerteza diante do futuro; o medo do que existe fora do clã, da família, da torcida, da igreja.
O resultado disso tudo é a desqualificação do diferente, do que não pertence à tribo. Não há diálogo, pois dialogar implica reconhecer que o outro pode ter razão. As pequenas certezas são melhores do que qualquer outra perspectiva, ainda que mais ampla. É preciso calar o outro para que não abale as certezas cultivadas no partido, na igreja, no bando. Se ele não se calar, deve ser isolado, amordaçado, morto.
Caminhamos com passos certos para que as brigas nos estádios se espalhem para a praça, para os templos, e tenham os mesmos resultados.
Voltaire, um dos nossos padroeiros (visite o rodapé do blog para conhecê-los), passou outro dia pelo banco da praça e comentou comigo:

O direito humano não pode ser fundamentado em nenhum caso senão sobre esse direito da natureza; e o grande princípio, o princípio universal de um e do outro, é o mesmo em toda a terra: ‘Não faças aos outros o que não queres que te façam’. Ora, não se percebe como, segundo esse princípio, um homem poderia dizer a outro: ‘Crê no que eu creio e não no que não podes crer; caso contrário, morrerás’. (...) Atualmente, em alguns outros países, prefere-se dizer: ‘Crê ou te odiarei; crê, ou te farei todo o mal que estiver a meu alcance; monstro, se não tens minha religião, então não tens religião nenhuma; terás de ser horror para teus vizinhos, tua cidade e tua província.

O direito da intolerância é, portanto, absurdo e bárbaro; é o direito dos tigres, sendo bem mais horrível também, porque os tigres dilaceram suas presas para comer, enquanto nós nos exterminamos por causa de alguns parágrafos. *

Talvez a sociedade brasileira tenha que sofrer até o fim as dores que a intolerância provoca para se livrar desse monstro que muitas vezes já foi dado como morto mas que, como a Hidra, sempre tem suas horrendas cabeças renovadas.

*Tratado sobre a Tolerância, 1763

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Inimigos Públicos

e os nossos digam:
- Eles em voraz sanha combateram,
Mas com sinais de estima se apartaram
(Ilíada VII, 243-245)

Dessa forma, Ájax e Heitor, diante de Tróia, resolveram interromper a luta por causa da chegada da noite. Acabado o duelo, os heróis homéricos mostraram sinais de respeito um pelo valor do outro e se afastaram em paz até o próximo encontro.
É duvidoso que um cronista atual possa escrever o mesmo sobre o conflito político que se desenvolve entre, principalmente, PT e PSDB.
É certo que com voraz sanha combatem. Mas não se apartarão com sinais de estima ao fim da eleição. Continuarão combatendo. Armando ciladas. Procurando destruir.
A dinâmica da disputa política nos últimos tempos tem levado os dois principais partidos políticos brasileiros a uma guerra de extermínio, a um jogo de soma zero, em que o vencedor leva tudo e cuja finalidade é a eliminação do adversário. Fazem política com o fígado e não com o cérebro. Negam a própria essência da política que é o diálogo entre contrários.
Nessa radicalização, a lógica é de que lado tem sempre razão e o erro é sempre do adversário. Esse comportamento de faccioso se manifesta na defesa de ideias e projetos apenas com o fundamento de que são do mesmo partido, independente do mérito de cada um. E no bloqueio de outros pela razão exatamente contrária.
Esse jogo de vetos leva a um bloqueio no trato de questões cuja complexidade requer a composição de diversos pontos de vista para sua equalização, tantas são as variáveis em jogo. No entanto, na atual configuração de forças, ninguém tem poder suficiente para ir muito longe sozinho, enquanto que todos têm condições de bloquear o avanço do adversário.
Assim, questões fundamentais para o avanço social, econômico e político encontram-se bloqueadas pela falta de diálogo e pela inexistência de condições para o consenso entre as diversas facções. Ou seja, falta Política.
O predomínio do pensamento faccioso não é privilégio do Brasil, podendo ser observado no impasse partidário que reina na política americana opondo democratas e republicanos.
Também não é uma situação somente contemporânea. 
A história de Roma mostra que essa situação se instalou na República à medida que os recursos à disposição dos magistrados aumentaram exponencialmente com as conquistas externas. As posições de poder político haviam se tornado muito lucrativas, justificando todos os meios para que os políticos nelas permanecessem e delas afastassem os adversários.
A disputa é, portanto, antes de tudo, pela possibilidade de manejar o dinheiro público à vontade e, sobre isso, não há diálogo. Outros tempos. Outros homens.

Será??

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A Cristianização de Dilma

Calma, amigos! Não estou a falar da conversão da presidente/candidata à religião cristã, apesar das repetidas profissões de fé que ela fará durante a campanha em comícios, vídeos e igrejas. A mim, pelo menos, pouco importa a religião dessa candidata ou de qualquer outro. Como diria Deng Xiao Ping, “não importa a cor do gato, desde que pegue os ratos”. E como tem rato!
Cristianizar tem um sentido peculiar no dicionário político brasileiro e significa um apoio formal por parte da cúpula dos partidos que não se traduz, no entanto, em trabalho efetivo em favor do candidato por parte das bases..
O termo nasceu na campanha presidencial de 1950, que opunha o brigadeiro Eduardo Gomes (UDN), Getulio Vargas (PTB) e Cristiano Machado (PSD). Embora Cristiano tivesse o apoio formal do PSD nacional, os caciques locais do partido trabalharam efetivamente em favor de Getulio Vargas. Getulio venceu a eleição e Cristiano teve um desempenho pífio.
Desde então, vários foram os candidatos cristianizados. O mais famoso foi Ulisses Guimarães, cristianizado na primeira eleição direta pós ditadura, quando o PMDB deu-lhe apoio formal mas trabalhou efetivamente pelos mais diversos candidatos com chance de vencer.
Essa é a chave da cristianização: a possibilidade de vencer.
Os recentes movimentos políticos parecem indicar um início de cristianização de Dilma, na onda das crises econômica/política/policial/energética/policial que assombra a candidatura da presidente.
A face mais visível é o movimento “Volta Lula” (talvez seja apenas coincidência com a participação da candidatura de Getulio em 1950, que tinha slogan semelhante).
O líder do PR na Câmara Federal, Bernardo Santana, lançou o movimento com o gesto simbólico de trocar a foto de Dilma em seu gabinete pelo de Lula (ninguém vai lembrar da marchinha getulista “Bota o retrato do velho, bota no mesmo lugar....). Ainda mais significativa foi a frase do líder: “Ao apoiar o ‘Volta, Lula’, deixei claro que o partido apoiará Dilma até deixar de apoiar”. E completou na lógica que comanda a política fisiológica: “E não precisa necessariamente largar o governo nem devolver os cargos” *.
E, embora o PR tenha largado na frente, o maior perigo vem do PMDB, o eterno partido governista.
Some-se a isso o “sincericídio” cometido pela presidente-candidata ao dizer que seria candidata com ou sem a base aliada, frase que faz crer que a candidatura Dilma também já percebe que os aliados estão escapando por entre os dedos.
Essa parece a ponta de um iceberg que pode fazer naufragar o barco da presidente-candidata. Os apertos de mão nas convenções selam acordos com as cúpulas partidárias cujas bases irão fazer campanha para outros candidatos. E, na política brasileira, o apoio de um líder comunitário ou de um deputado popular vale mais que a aliança das legendas.
É sabido que a presidente carrega consigo a antipatia da classe política, ao contrário de Lula. Para nossos políticos, carregar uma candidatura cheia de problemas e ainda não gostando da candidata, só com uma boa chance de vencer a eleição. Por enquanto, Dilma ainda é uma aposta segura. Mas, até quando?
Convertida ou não, Dilma corre um sério risco de ser cristianizada.

*As citações em itálico foram retiradas de uma postagem de Ricardo Noblat em seu blog, denominada "A política como ela é". Aproveito para recomendar o blog do Noblat.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Dos Frutos da Discórdia

Na mitologia grega, a guerra de Tróia teria começado por causa do famoso “pomo da discórdia”, ou seja, de uma maçã que Eris, a discórdia, jogou entre Hera, Atena e Afrodite com a inscrição de que era endereçada “à mais bela”. É de se imaginar a confusão que aconteceu.
Já a mitologia hebraica atribui à maçã uma série de problemas ainda maiores.
Parece que o Brasil, por meio de dois de seus mais destacados candidatos a mitos, acaba de contribuir para a cultura universal ao criar a “banana da discórdia”.
O gesto do Daniel Alves, ao comer a fruta arremessada à arena (hoje não existem mais campos de futebol, mas “arenas”. Pelo tipo de futebol que se pratica por aqui, até acho o nome mais adequado), pode até ser compreendido sob o argumento de que estava de cabeça quente e agiu num impulso. Mas não deixa de ser uma submissão à agressão racista que sofreu.
Mas a mensagem do Neymar (nosso mais badalado “craque”, se é o melhor é outra discussão), “somos todos macacos” me parece ser uma bobagem sem tamanho. Ao fazê-lo, deu razão aos racistas e chamou sobre si o que acredito ser uma das piores ofensas no arsenal desse tipo de gente. É como se admitisse o ataque. É como se dissesse: já que não se pode vencê-los, junte-se a eles.
E o pior. Não chamou somente sobre si, mas sobre todos aqueles que, a partir de agora, poderão ser assim agredidos sob a desculpa de que “o Neymar mesmo disse”. Não se trata apenas da agressão ao Daniel Alves. Mas de uma agressão a um sem número de pessoas que são muito mais expostas e frágeis. E me parece que a maioria delas não concorda com o Neymar.
Imagino que o torcedor que arremessou a malfadada fruta tropical (que deve custar bem caro na Espanha) possa se defender da seguinte maneira: “mas se um deles comeu e o outro admitiu, que fiz eu de errado? Foi até mesmo uma forma de homenagem, nunca racismo!”
O racismo é um tema muito delicado e sério para ser tratado com tamanha leviandade. Ao que parece, a manifestação do Neymar teria sido até mesmo criada por uma agência de publicidade. Ou seja, mais um golpe publicitário oportunista em que o protagonista que recita um texto sem refletir sobre suas conseqüências, sobre os efeitos que podem produzir naqueles que ouvem.
Ao banalizar esse tipo de agressão ou tentar protestar contra eles com frases de efeito duvidoso, os gestos dos nossos amados jogadores podem significar uma porta aberta para outras piores. Mas eles não têm culpa de desconhecer a história dos países onde vivem ou de onde vieram. Fechar a porta ao mal é mais difícil do que deixá-la sempre fechada.


sexta-feira, 21 de março de 2014

Uma Bolsa de Outros Valores

Bem, já que o último post fez tanto sucesso que foi discutido em outra praça, vamos voltar ao tema, até porque parece que eu não deixei clara minha opinião sobre o bolsa-família.
Em primeiro lugar, não sou contra nem acho que deva ser extinto. Principalmente porque é uma das formas mais eficientes de realizar a tão decantada e tão evitada distribuição de renda. E nossos índices de desigualdade são pornográficos. É um tipo inicial de renda mínima de cidadania, por tanto tempo defendida pelo hoje senador Suplicy, e pela qual cada brasileiro deveria ter um mínimo de renda que lhe garantisse uma sobrevivência digna.
Dito isso, acho que podemos analisar esse programa sob diversos aspectos.
Socialmente, os recursos permitem acesso a bens de consumo de primeira necessidade, garantindo um nível mínimo de sobrevivência E esse acesso é feito respeitando a dignidade de quem recebe, pois coloca o recurso diretamente em suas mãos, sem ter que passar pelo deputado, pelo prefeito, pelo vereador. E ainda respeita suas preferências: cada um gasta como quer.
Economicamente, ajuda a desenvolver as atividades locais, uma vez que os gastos são feitos no local onde os beneficiários vivem, movimentando o comércio, a agricultura e a indústria, com potencial para gerar um ciclo virtuoso de crescimento econômico.
Pesquisas mostram, ainda, a melhoria da freqüência e do desempenho escolar de crianças cuja família é beneficiada, o que irá repercutir em melhores oportunidades.
Uma crítica freqüente diz que as pessoas deixam de trabalhar para viver apenas “da ajuda do governo”. Duas observações a respeito. Uma, se uma pessoa tem ofertas de salário tão baixas que prefere viver do auxílio, é porque o salário oferecido por seu trabalho é mesmo indigno. Outra, se alguém quiser mesmo viver do auxílio, é uma opção econômica como qualquer outra. Responda: qual o valor necessário para que você deixe de trabalhar para viver de renda? Porquê um beneficiário não pode fazer a mesma escolha? Porque é pobre? Porque o dinheiro é tirado dos nossos impostos? Acho que é uma das melhores destinações que ele pode ter, pensando pragmaticamente no quanto a desigualdade de renda prejudica o Brasil.
O grande calcanhar de Aquiles (para manter a tendência a citações dos clássicos desse blog) do programa é sua repercussão política, na medida em que é gritante a tendência de voto em favor do governo nas regiões mais pobres e, consequentemente, com maior índice de favorecidos. Há um claro e inegável efeito de indução de voto no governo.
Bem, em primeiro lugar, acho mais que natural que as pessoas votem em quem os beneficie. Reelegemos FHC por causa da aura de criador do Real. Porque as pessoas que ganham o bolsa-família não podem votar no Lula por causa dela? Também é uma escolha racional como qualquer outra. Esse comportamento não é novo nem exclusivo, com a diferença de que antes as pessoas votavam em troca de dentaduras, um pé de botina (o outro só se o candidato ganhasse), camisas para o time de futebol. Pelo menos, agora, o voto é dado em troca de um programa que produz resultados efetivos e duradouros, promovendo o entorno social e economicamente.
Do ponto de vista da oposição, resta encontrar uma alternativa tão boa ou, então, admitir os méritos do programa e jurar de pés juntos que os programas continuarão caso ganhem. Mas, as dificuldades da oposição não afetam as qualidades e defeitos do programa em si.
Esse impasse da oposição revela que, efetivamente, os ganhos promovidos pelos programas de distribuição de renda estão definitivamente incorporados ao panorama sócio-político. Dificilmente algum candidato conseguirá os votos se defender sua extinção. Se fizer isso depois de eleito, enfrentará resistências de grande potencial explosivo.
Acredito que o programa pode ser aperfeiçoado até se transformar, efetivamente, numa renda mínima de cidadania. E a neutralização do seu efeito político será uma conseqüência de uma consciência cidadã de que os recursos disponibilizados pelo não decorrem de um favor do mandatário de plantão, mas um direito à participação na riqueza nacional que é um direito de todo brasileiro pelo simples fato de ser um cidadão.
Puxa, parece um discurso!!!

segunda-feira, 17 de março de 2014

De Votos e Cabrestos

Um grande amigo passou por mim em uma outra praça e comentou sobre uma ideia que vem rolando pelas praças e que consistiria em retirar o direito de voto dos que recebem bolsa-família ou outros auxílios do governo. Seria uma iniciativa contra o que se chama voto de cabresto.
Na hora contestei em nome da democracia. Como lhe disse, temos que tirar o cabresto, não o voto.
Acontece que essa não é uma ideia nova. Era mesmo praticada pelos atenienses em sua decantada democracia. E foi defendida por vários pensadores políticos, que entendiam que a República somente seria viável com o voto censitário, ou seja, baseado na renda ou na propriedade. Essa forma de organização e até mesmo o debate a respeito só se tornaram tabu depois das Revoluções Francesa e Russa e das conquistas sociais e políticas do século passado. A democracia, hoje, é impensável sem o voto universal.
De toda a forma, a noção de que somente os proprietários deveriam ter direito à participação política, não nasce das noções modernas de segregação social, mas da antiga tentativa de evitar que os juízos políticos sejam influenciados pelo interesse ou necessidade material.
A participação política requer o exercício do diálogo e do raciocínio, capacidades humanas por excelência. Para propor ou avaliar uma matéria ligada ao bem comum, ou seja, à política, é de se esperar que os indivíduos atuem de forma autônoma, de acordo com suas concepções do que seja aquele bem comum. Não se espera uniformidade, mas razão empregada sem os constrangimentos da dependência.
As facções e clientelas formadas no fim da República Romana a partir da influência dos grandes senhores de terras e exércitos levaram ao Império e sempre foram consideradas ameaças sérias à República desde então. Integrados em clientelas ligadas a algum senhor, os indivíduos já não julgam de acordo com suas avaliações, mas de acordo com os interesses de seus senhores.
No Brasil, o chamado voto de cabresto tem uma longa história, podendo ser identificado em todos os regimes e em todas as esferas de governo. É um dos principais vícios de nosso sistema político e não tem aparência de que vai acabar. Isso porque praticamente todo o sistema está baseado na influência e nas clientelas.
Não é só o Bolsa Família ou outros programas de distribuição de renda pelo Governo Central. A dependência de parlamentares e executivos de Estados e Municípios em relação às verbas controladas pelo Executivo Central também leva ao voto de cabresto e distorce a democracia brasileira, sustentando o atual modelo. Isso sem falar nas empresas que dependem das encomendas governamentais para sobreviver e que, por seu turno, cooptam representantes pela via do financiamento de campanha.
Nascido da dependência, o fim do voto de cabresto requer uma mudança que vai além do sistema político e eleitoral, requerendo mesmo uma nova organização social e econômica que diminua as desigualdades que separam os brasileiros, dando aos que têm poder de voto, eleitores e representantes, a independência necessária para exercê-lo em nome do bem comum e não de acordo com os donos do dinheiro. 
Muitos são os beneficiários das desigualdades e do voto de cabresto e, muitos deles, estão entrincheirados nas posições sociais capazes de promover as mudanças necessárias. Mas, se são beneficiários dos próprios mecanismos que deveriam reformar, porquê iriam fazê-lo?
Como se vê, é um círculo vicioso.

Mas ainda continuo a achar que retirar o cabresto é melhor que retirar o voto.

quarta-feira, 5 de março de 2014

De Volta

    Estou de volta para a nossa Praça. Não sei por quanto tempo, mas estou por aqui para compartilhar com vocês e comigo mesmo, algumas fofocas, palpites, gracinhas e coisas sérias também. 
   Nossa praça, está um tanto abandonada, eu reconheço. Mas sempre é possível voltar a ser um lugar de reflexão num banco, de música num coreto ou de discurso sobre uma caixa de fósforos.
   Minha última postagem é de julho de 2013. Tanta coisa aconteceu desde então, dentro e fora de mim. Vou tentar dividir minhas viagens internas e externas com quem estiver passando aqui pela praça.

    Portanto, vocês estão avisados do perigo que correm ao passar por aqui ! Não digam que eu não avisei !

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Notícias de Versailles

Cortesãos ouviram o Rei reclamar de que vândalos haviam se infiltrado nas recentes manifestações pacíficas:

“Vocês viram o estado em que deixaram a Bastilha?”

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Renan, o Legítimo

O senador Renan Calheiros, eleito por Alagoas, às vezes tem sua legitimidade questionada nas ruas ou nesse novo Àgora democrático que são as redes sociais. Alguém se lembra do abaixo-assinado produzido para que ele saísse da presidência do Senado? Ele também não deve se lembrar, dada a parisiense indiferença com que tratou a iniciativa dos impotentes e indignados cidadãos.
No entanto, Renan é um representante duplamente legítimo da nossa democracia.
Primeiro, foi legitimamente eleito pelo povo de seu Estado para representá-lo no Senado Federal. Por legitimamente entenda-se dentro das regras e pelo voto livre dos eleitores. Livre aqui é tem uma pitada de ironia. Porém, é um voto tão válido quanto os votos de mineiros, goianos ou paulistas.
Segundo, é legítimo representante da nobreza política que controla nossa, digamos, República. Pressionado pelo povo às portas do Congresso, apressou-se a legislar para agradar a turba. Na semana seguinte, já estava aboletado irregularmente em aviões públicos.
Dentre suas propostas sacadas do bolso do colete para adoçar a boca dos manifestantes estaria o passe livre de ônibus, amplo, geral e irrestrito. Até nisso representa a nossa aristocracia, já que não se preocupa com o quanto suas ideias representarão em gasto de dinheiro público. Ora, se é público, não é de ninguém, pode-se fazer dele o que bem se entende, diz a regra de ouro da aristocracia.
Porém, Renan não ouve a multidão quando esta pede sua renúncia.
Mas, por quê haveria de ouvir, de escutar, e pior: de atendê-la? Afinal de contas, é um representante tão legítimo quanto qualquer outro. Só porque não gostam dele não têm o direito de cassar a expressão da vontade de seus eleitores. Até porque o tipo de gente que é eleito em outros Estados não se diferencia muito dele.
Renan traz em si uma das maiores contradições da democracia. O representante da aristocracia política legitimamente eleito não pode ser apeado do poder sem o rompimento da própria ordem democrática, tomando por certo que não será derrubado por seus pares, como se viu no caso da multiplicação milagrosa do gado de Renan. Ou seja, faça o que fizer, continuará ali, a desprezar a multidão que pede sua saída.
E o que a multidão pode fazer contra ele? Nada. Pelo menos não dentro das regras democráticas, a não ser que se mude para Alagoas e vote em massa contra sua eleição da próxima vez. Caso contrário, como diria o Velho Lobo: terão que engoli-lo. Isso porque os eleitores que já estão por lá, não se mostram disposto a abandoná-lo nas urnas, seja por que motivo for.
Mas Renan não é o único. A maioria dos representantes legitimamente eleitos nas urnas sofre uma crescente deterioração de legitimidade nas ruas. Historicamente, nos momentos em que o acúmulo de ilegitimidade dos representantes legítimos atinge níveis críticos, o desfecho normalmente acontece fora das regras democráticas. É o velho jogo político entre legitimidade e violência.

Quem se habilita? Quem tem força suficiente? As ruas? Os chefes do Executivo e do Judiciário já se assanharam. Ou ninguém?

sábado, 13 de julho de 2013

A Morte de Mirabeau

Thomas Carlyle (1795/1881), na sua História da Revolução Francesa, escrita quase como um romance, fala sobre a morte de Mirabeau, o aristocrata eleito pelo povo para os Estados Gerais de 1789, e que tentava encontrar uma forma de salvar a monarquia da extinção. Mais que história, trata da vida.


Mas Mirabeau não podia viver outro ano, da mesma forma que não podia viver mil anos. Os anos dos homens são numerados e a conta dos de Mirabeau estava agora completa. importante ou não importante: que seja mencionado na História Universal durante alguns séculos, ou que não seja ali mencionado mais do que um dia ou dois, isso pouco importa ao destino peremptório. No meio dos esforços duma vida de intensa atividade, o pálido mensageiro silentemente faz sinal: interesses em larga extensão, projetos, salvação de monarquias francesas, seja o que for que tiveres em mão, terás repentinamente de abandonar e ir. Quer estejas a salvar monarquias francesas; quer estejas a engraxar sapatos na Pont Neuf! Nem o mais importante dos homens pode ficar: mesmo que a História do Mundo dependa dele por uma hora, essa hora não é concedida. Do que se conclui que estes mesmos "teriam sido" são as mais das vezes uma vaidade; e que a História do Mundo nunca podia, de maneira nenhuma, ter sido o que ela podia ou devia ser, por qualquer espécie de potencialidade, mas simples e absolutamente o que é.

sábado, 29 de junho de 2013

A Rapidez do Tempo

Para quem conhece um pouco da história da Revolução Francesa, deve ter causado espanto o fato de que não se passaram nem vinte quatro horas entre a convocação dos Estados Gerais pela rainha e a aparição do nosso Napoleão ditando como deverão caminhar as coisas.

Na França, demorou quase dez anos. Sinal da velocidade dos tempos.

O Gigante Acordou

Nas grandes manifestações que se espalharam pelo país nesses últimos dias havia sempre uma sensação de despertar nacional traduzida, às vezes, pela expressão “o gigante acordou!”.
Emblemática no que tem de contraste com o gigante deitado em berço esplendido retratado no hino composto pela aristocracia, cujo desejo é de que assim permaneça. Mas, o despertar do gigante também provoca algumas questões: que gigante? Qual das partes desse gigante multifacetado?
A aparente impossibilidade de se identifica nos movimentos uma pauta e uma direção unificada decorre da heterogeneidade do gigante.
As pautas das manifestações vão das gerais, como melhorias na educação ou fim da corrupção, às locais como a construção de passarela sobre uma rodovia. Todas legítimas, mas nem todas conciliáveis ou relacionadas.
O que une o manifestante que pede a saída do presidente do Senado Federal na Avenida Paulista daquele da periferia que quer a construção de um posto de saúde? Quase nada, como demonstra a tentativa inicial do Movimento pelo Passe Livre das manifestações tão logo seu objetivo foi alcançado, abandonando os demais seguimentos, literalmente, na avenida.
Ora, somos todos brasileiros, isso é o que nos une! Será? Será que essa classe média que já está indo para as ruas pedindo a saída do presidente da CBF permanecerá nas ruas caso a reivindicação seja por reforma agrária ou urbana? Será que sustentariam o movimento pelo passe livre se a alternativa de financiamento (sim porque alguém haverá de financiar o almoço grátis) proposta fosse um imposto sobre o óleo diesel utilizado nas grandes caminhonetes de luxo que infestam nossas cidades? Aqueles que dependem  das transferências de renda do Governo Federal sairão às ruas para pedir sua deposição?
Por enquanto, todos são a favor de melhorias na saúde e na educação. Quem não seria? As coisas já ficam mais complicadas quando se fala no casamento entre homossexuais.

Quando as questões que provocam a profunda divisão social brasileira vierem efetivamente à tona, será interessante saber de que lado da luta estarão os filhos da pátria mãe gentil.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Puxão de Orelha

Estava a toa na vida, quando senti um puxão de orelha, vindo do século quinto antes de Cristo:

olhamos o homem alheio às atividades públicas não como alguém que cuida apenas de seus próprios interesses, mas como um inútil[1]

Era Péricles, me chamando de inútil desde Atenas, me fazendo sentir como se estivesse sozinho no centro do Ágora, observado pelos demais cidadãos e sendo repreendido pelo líder que deu seu nome ao século do auge da democracia ateniense. 
Certo, as sociedades e a participação política mudaram muito desde o discurso de Péricles, no início da Guerra do Peloponeso. Mas isso não afasta a responsabilidade do cidadão.
Como já comentamos em outros dias aqui em nossa praça, as condições políticas atuais desestimulam a participação, seja institucionalmente ou em movimentos sociais. Até para palpitar aqui nessa praça virtual tem sido chato. Assim, me dediquei nos últimos tempos a cuidar apenas de meus próprios interesses, justificando o olhar severo de Péricles.
É inegável que toda essa mobilização que vejo pela televisão desperta o cidadão que adormeceu em berço esplendido. Bom ver um povo mobilizado, embora tenha sérias dúvidas quanto aos seus resultados. Mas o tão só movimento já é um alento frente à passividade que nos caracteriza. O militante sente comichões cívicas. O observador da história sente preocupações sombrias.
Mas, antes de romper a letargia, ainda que seja para escreve em um blog, sempre surge a pergunta: o que fazer? E uma ainda pior: de que adianta? A tentação da inércia volta.
Aí vem Sêneca, direto de Roma, se senta ao meu lado no banco e também atiça o cidadão:

A carreira militar lhe é proibida? Que ele pretenda as magistraturas. Está ele reduzido à vida particular? Que advogue. O silêncio lhe é imposto? Que dê aos seus concidadãos o apoio mudo de sua presença. Mesmo o acesso ao fórum lhe é perigoso? Que nas residências particulares, nos espetáculos, à mesa, ele se mostre companheiro honesto, amigo fiel, conviva moderado. Ele não pode mais cumprir com seus deveres de cidadão? Restam-lhe os deveres de homem. (...) Adota uma tática análoga: se a sorte te afasta das primeiras classes da República, resiste e ajuda os outros com teus brados; se te apertam a garganta, resiste ainda e auxilia-os por meio de teu silêncio. Jamais um bom cidadão perde seu trabalho: este é ouvido e é visto. Sua fisionomia, seus gestos, sua muda obstinação e seu modo de andar, tudo auxilia.[2]

Então, já que o povo retomou a praça, voltemos à nossa, nem que seja prá ficar sentado no banco dando palpites.
Se quiserem, venham, sentem-se aqui comigo prá ver a banda passar.


[1] História da Guerra do Peloponeso, Tucídides (460-400 a.c.)
[2] Da Tranqüilidade da Alma, Sêneca (séc I, d.c.)

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Tempos da política

A eleição paulistana revelou a contraposição de três projetos políticos que, além de outras diferenças e semelhanças, representam momentos no tempo político brasileiro.
Um é o passado na figura da candidatura tucana que, arraigada em figuras, discursos e práticas congeladas no tempo e no espaço, não consegue elaborar um projeto de país que dê sustentação a uma oposição crível à hegemonia petista. Pode até vencer, mas não tem vitalidade.
Outra é o presente, representado na força do prestígio e do apelo carismático de Lula, apostando suas fichas em um apadrinhado desconhecido e atropelando as estruturas e pessoas históricas no partido para se afirmar como única via dentro do PT e do país. Pode perder, mas a derrota não comprometerá a capacidade de Lula de influir na política brasileira por um bom tempo.
Por fim, o futuro. Pela primeira vez um projeto de poder baseado nas igrejas neo-pentecostais aparece de forma explícita, autônoma e com chances de se apoderar de um importante centro de político. Russomano ou seu partido não têm força própria para vôos mais importantes mas, perdendo ou ganhando, representarão um primeiro ensaio de uma nova força política sustentada nas multidões arrebanhadas pela fé.
Não é um panorama encorajador. Métodos, pessoas e idéias que apresentam perspectivas nada promissoras para o futuro da democracia brasileira, já tão maltratada no passado e no presente.