O Brasil, acompanhando uma
tendência mundial, vem desmentindo a imagem do homem cordial e tolerante que cultivávamos
em nossa mitologia social. Estamos revelando nossa face mais violenta e
intolerante, face essa que sempre foi mantida encoberta, mesmo nos momentos
autoritários.
O que se vê nos campos de
futebol, nas campanhas políticas, nas pregações religiosas é cada vez mais o
repúdio ao outro, ao que pensa diferente, ao que crê em outros deuses, ao que
veste a camisa de outro time. E o repúdio vai do exorcismo, da calúnia até o
assassinato.
Não é possível suportar o outro porque ele é o sinal permanente de um outro modo de existir.
Alguns fatores alimentam a
intolerância brasileira: a disputa pelos fiéis entre católicos e evangélicos e estes entre si; a falta de perspectiva da oposição política vir a
ocupar o poder; a falta de pudor dos atuais governantes em lançar mão de todas
as armas (legais, ilegais, legítimas, ilegítimas) para se conservar no poder e
calar a oposição; a incerteza diante do futuro; o medo do que existe fora do
clã, da família, da torcida, da igreja.
O resultado disso tudo é a
desqualificação do diferente, do que não pertence à tribo. Não há diálogo, pois
dialogar implica reconhecer que o outro pode ter razão. As pequenas certezas são
melhores do que qualquer outra perspectiva, ainda que mais ampla. É preciso
calar o outro para que não abale as certezas cultivadas no partido, na igreja,
no bando. Se ele não se calar, deve ser isolado, amordaçado, morto.
Caminhamos com passos certos para
que as brigas nos estádios se espalhem para a praça, para os templos, e tenham
os mesmos resultados.
Voltaire, um dos nossos padroeiros (visite o rodapé do blog para conhecê-los), passou outro dia pelo banco da praça e comentou comigo:
O direito humano não pode ser fundamentado em nenhum caso senão sobre esse direito da natureza; e o grande princípio, o princípio universal de um e do outro, é o mesmo em toda a terra: ‘Não faças aos outros o que não queres que te façam’. Ora, não se percebe como, segundo esse princípio, um homem poderia dizer a outro: ‘Crê no que eu creio e não no que não podes crer; caso contrário, morrerás’. (...) Atualmente, em alguns outros países, prefere-se dizer: ‘Crê ou te odiarei; crê, ou te farei todo o mal que estiver a meu alcance; monstro, se não tens minha religião, então não tens religião nenhuma; terás de ser horror para teus vizinhos, tua cidade e tua província.
O direito da intolerância é, portanto, absurdo e bárbaro; é o direito
dos tigres, sendo bem mais horrível também, porque os tigres dilaceram suas
presas para comer, enquanto nós nos exterminamos por causa de alguns parágrafos. *
Talvez a sociedade brasileira tenha que sofrer até o fim as dores que a intolerância provoca para se livrar desse monstro que muitas vezes já foi dado como morto mas que, como a Hidra, sempre tem suas horrendas cabeças renovadas.
*Tratado sobre a Tolerância, 1763