“e os nossos digam:
- Eles em voraz sanha combateram,
Mas com sinais de estima se apartaram”
(Ilíada VII, 243-245)
Dessa forma, Ájax
e Heitor, diante de Tróia, resolveram interromper a luta por causa da chegada da noite. Acabado o duelo, os heróis homéricos mostraram sinais de
respeito um pelo valor do outro e se afastaram em paz até o próximo encontro.
É duvidoso que
um cronista atual possa escrever o mesmo sobre o conflito político que se
desenvolve entre, principalmente, PT e PSDB.
É certo que
com voraz sanha combatem. Mas não se
apartarão com sinais de estima ao fim da eleição. Continuarão combatendo. Armando ciladas. Procurando destruir.
A dinâmica da
disputa política nos últimos tempos tem levado os dois principais partidos
políticos brasileiros a uma guerra de extermínio, a um jogo de soma zero, em
que o vencedor leva tudo e cuja finalidade é a eliminação do adversário. Fazem
política com o fígado e não com o cérebro. Negam a própria essência da política
que é o diálogo entre contrários.
Nessa
radicalização, a lógica é de que lado tem sempre razão e o erro é sempre do adversário. Esse
comportamento de faccioso se manifesta na defesa de ideias e projetos apenas com o fundamento de que são do mesmo partido,
independente do mérito de cada um. E no bloqueio de outros pela razão exatamente contrária.
Esse jogo de
vetos leva a um bloqueio no trato de questões
cuja complexidade requer a composição de diversos pontos de vista para sua equalização, tantas são as variáveis em jogo. No entanto, na atual configuração de forças, ninguém tem poder suficiente
para ir muito longe sozinho, enquanto que todos têm condições de bloquear o
avanço do adversário.
Assim,
questões fundamentais para o avanço social, econômico e político encontram-se bloqueadas
pela falta de diálogo e pela inexistência de condições para o consenso entre as
diversas facções. Ou seja, falta Política.
O predomínio do pensamento faccioso não é privilégio do Brasil, podendo ser observado no impasse partidário que reina na política americana opondo democratas e republicanos.
Também não é uma situação somente contemporânea.
A história de
Roma mostra que essa situação se instalou na República à medida que os recursos
à disposição dos magistrados aumentaram exponencialmente com as conquistas
externas. As posições de poder político haviam se tornado muito lucrativas,
justificando todos os meios para que os políticos nelas permanecessem e delas
afastassem os adversários.
A disputa é,
portanto, antes de tudo, pela possibilidade de manejar o dinheiro público à
vontade e, sobre isso, não há diálogo. Outros tempos. Outros homens.
Será??