Estava a toa na vida, quando senti um puxão de orelha, vindo do século quinto antes de Cristo:
olhamos o homem alheio às atividades públicas não como alguém que cuida apenas de seus próprios interesses, mas como um inútil
Era Péricles, me chamando de inútil desde Atenas, me fazendo sentir como se estivesse sozinho no centro do Ágora, observado pelos demais cidadãos e sendo repreendido pelo líder que deu seu nome ao século do auge da democracia ateniense.
Certo, as sociedades e a participação política mudaram muito desde o discurso de Péricles, no início da Guerra do Peloponeso. Mas isso não afasta a responsabilidade do cidadão.
Como já comentamos em outros dias aqui em nossa praça, as condições políticas atuais desestimulam a participação, seja institucionalmente ou em movimentos sociais. Até para palpitar aqui nessa praça virtual tem sido chato. Assim, me dediquei nos últimos tempos a cuidar apenas de meus próprios interesses, justificando o olhar severo de Péricles.
É inegável que toda essa mobilização que vejo pela televisão desperta o cidadão que adormeceu em berço esplendido. Bom ver um povo mobilizado, embora tenha sérias dúvidas quanto aos seus resultados. Mas o tão só movimento já é um alento frente à passividade que nos caracteriza. O militante sente comichões cívicas. O observador da história sente preocupações sombrias.
Mas, antes de romper a letargia, ainda que seja para escreve em um blog, sempre surge a pergunta: o que fazer? E uma ainda pior: de que adianta? A tentação da inércia volta.
Aí vem Sêneca, direto de Roma, se senta ao meu lado no banco e também atiça o cidadão:
A carreira militar lhe é proibida? Que ele pretenda as magistraturas. Está ele reduzido à vida particular? Que advogue. O silêncio lhe é imposto? Que dê aos seus concidadãos o apoio mudo de sua presença. Mesmo o acesso ao fórum lhe é perigoso? Que nas residências particulares, nos espetáculos, à mesa, ele se mostre companheiro honesto, amigo fiel, conviva moderado. Ele não pode mais cumprir com seus deveres de cidadão? Restam-lhe os deveres de homem. (...) Adota uma tática análoga: se a sorte te afasta das primeiras classes da República, resiste e ajuda os outros com teus brados; se te apertam a garganta, resiste ainda e auxilia-os por meio de teu silêncio. Jamais um bom cidadão perde seu trabalho: este é ouvido e é visto. Sua fisionomia, seus gestos, sua muda obstinação e seu modo de andar, tudo auxilia.
Então, já que o povo retomou a praça, voltemos à nossa, nem que seja prá ficar sentado no banco dando palpites.
Se quiserem, venham, sentem-se aqui comigo prá ver a banda passar.