domingo, 6 de maio de 2012

Três Vezes Brasil

Três fotografias da sociedade brasileira em mutação. Ou seria decomposição ?
Primeira.
Em uma entrevista à revista Veja, edição de 02 de maio de 2012, a esposa do Sr. Carlinhos Cachoeira diz, textualmente:
“Quero que ele saia dessa política nojenta.”
Interessante como a declaração reflete nossa relação com a sociedade da qual fazemos parte. A julgar por tudo o que vem sendo vazado pela imprensa, o Sr. Carlinhos Cachoeira é um dos responsáveis pelo tipo de políticos e de política que temos. No entanto, sua esposa parece encarar a política como algo independente do agir do marido, como se eles vivessem em um outro mundo. Fala como se fosse apenas a política do Brasil que é nojenta e não o agir do marido que colabora para que ela seja assim.
Somos assim, subornamos o policial e reclamamos da corrupção dos agentes do Estado. Achamos nossos políticos incompetentes e engrossamos a torrente de votos do candidato “de protesto”, nos divertindo repetindo que “pior não fica”. Nosso trânsito é horroroso, mas precisamos passar no sinal vermelho porque, afinal de contas, estamos muito atrasados! Vivemos no Brasil, como se o olhássemos de um outro planeta para identificar e criticars seus problemas. Nunca para reconhecer nossa parcela na existência deles.
Segunda.
Em um assalto, praticado por um adolescente em companhia de um outro assaltante maior de idade, quem aguardava a dupla do lado de fora era o pai do adolescente, dirigindo o carro da fuga. O assalto terminou na morte do comerciante.
No momento em que uma das questões mais discutidas, em que pese sua enorme banalidade, é a chamada Lei da Palmada, um pai acompanha o filho em um assalto, dando-lhe cobertura para a fuga e, certamente, se acobertando com sua menoridade penal. É risível discutir se um pai pode dar uma palmada num filho em uma sociedade cujos valores passados de pai para filho são oriundos de um assalto à mão armada que deixou uma pessoa morta. Ou são originados em contratos fraudados com o Estado.
Terceira.
Uma comerciária em Campinas, em uma rápida conversa com um cliente, relata que irá trabalhar no feriado do dia Primeiro de Maio, uma vez que a empresa prefere pagar a multa decorrente da violação da lei que proíbe a abertura de estabelecimentos comerciais a ficar sem o faturamento do dia.
As leis normalmente veiculam os valores de certo e errado de uma sociedade. As condutas são permitidas, obrigatórias ou proibidas de acordo com os valores que lhe são atribuídos. Nesse esquema, por mais ingênuo que seja, a penalidade decorrente da violação da lei não é uma opção, mas uma reprimenda pela desobediência.
Diz muito de uma sociedade o fato de a penalidade ser tomada como uma variável no cálculo das condutas. Demonstra que o desrespeito à lei não é, em si, algo indesejável. A lei não é um imperativo moral, de certo ou errado. Só será assim se a punição for tal que force o respeito. Se a punição for menor que o ganho ou, ainda, se a possibilidade de punição for diminuta, as condutas não precisarão seguir a lei. Cada um que faça seus cálculos. E a escalada da gritaria dos moralistas aumentará até que todas as penas sejam de morte em uma sociedade morta.
Maquiavel, ouvindo as notícias, comenta:
“Onde o desregramento é universal, não há leis nem instituições que o possam reprimir. De fato, os bons costumes só podem ser conservados com o apoio de boas leis, e a observação das leis exige bons costumes. Além disso, as leis e instituições estabelecidas na origem de uma república, quando os cidadãos eram virtuosos, se tornam insuficientes quando eles começam a se corromper.” (Comentários sobre a Primeira Década de Tito Lívio)