quarta-feira, 21 de março de 2012

Papel de Candidato


O assunto da campanha paulista nesta semana foi a reação do tucano perpétuo, José Serra, quando confrontado com a inevitável pergunta sobre sua promessa, feita em campanha anterior à prefeitura de São Paulo, de não deixar o cargo antes do término do mandato. Como se sabe, saiu.
Segundo reportou a Folha de S. Paulo, Serra teria respondido: Primeiro: eu não assinei nada em cartório. Eu assinei um papelzinho. Não era nada.
Parece que os tucanos, embora pretendam ser o único partido letrado na política brasileira, tem problemas com a escrita, basta lembrar a frase que colou no tucano-mor, FHC, “esqueçam o que escrevi”, tenha ele efetivamente dito ou não.
A reação de Serra pode levantar algumas questões importantes, diante do fato de que ele fez a promessa que agora renega, ainda que verbalmente.
Primeira: se, escrita em um “papelzinho de nada”, uma promessa não precisa ser cumprida, então os eleitores que se empolguem com uma das muitas promessas que Serra fará durante a presente campanha deverão pedir que o candidato as transcreva em papel timbrado do partido, por exemplo. Não é preciso pedir que seja com o timbre oficial do Palácio dos Bandeirantes, até porque seria uso da máquina pública na campanha. De toda a forma, parece que Alckmin não anda com muita vontade de emprestar o seu timbre ao candidato.
Segunda: se, ainda que devidamente vertida para o papel, as promessas do candidato tiverem que ser registradas em cartório, haverá um enorme procura pelos registros civis ao fim de cada comício ou programa de televisão.
De toda a forma, parece que as palavras de candidato, se não escritas em papel oficial e registradas em cartório, são nada.
Muito além do curioso e do anedótico, o comportamento de Serra retrata o desprezo dos homens públicos brasileiros pelas promessas/propostas/programas que apresentam aos eleitores durante as campanhas e aos cidadãos ao longo de seus mandatos. Não vale nem o que está escrito, seja em papeizinhos ou em programas de governo.
E o desprezo pelos programas reflete o desprezo pelos os eleitores. Os políticos sabem que, eleição após eleição, receberão os votos que os reconduzirão aos cargos cujo exercício nenhuma semelhança terá com o que prometeram, verbalmente ou por escrito.
Então, por que gastar papel, tinta e dinheiro para registrar promessas de campanha?

sexta-feira, 2 de março de 2012

Uma Análise Infernal

         Um jornalista americano recordou recentemente uma frase dita, em 2008, pelo candidato a candidato à presidência americana pelo Partido Republicano, Rick Santorum, segundo a qual a crise dos créditos podres, que iniciou a atual crise financeira mundial, decorreria das artes de Satan.
Segundo a análise categorizada econômico-financeira-política do então deputado, “Satan está atacando as grandes instituições da América, usando os grandes vícios do orgulho, da vaidade e da sensualidade”. Por fim, advertiu Santorum: “Satan está de olho nos Estados Unidos da América”. *
Pobre América, de Terra da Promissão no imaginário dos puritanos que a colonizaram a alvo do tinhoso.
A manifestação do candidato, que não é, nem de longe, representante de crenças isoladas, permite duas observações.
Se Santorum (não é estranho que uma pessoa com um nome desses creia na força do capeta ???) estiver certo, é melhor que os americanos elejam um bom exorcista para dar jeito na maior depressão econômica desde 1930 e no atoleiro político que se tornou a queda de braço entre republicanos e democratas por conta da intransigência que paralisa o congresso americano.
Por outro lado, acho que ele tem um pouco de razão. Mas acho que as armas que o tentador está utilizando contra os EUA (e, pelo jeito, contra o mundo todo) são os políticos representantes da direita religiosa conservadora e raivosa que, em nome do que entendem ser a palavra de deus, se acham no direito de discriminar e perseguir; de se negar a ouvir o outro; de doutrinar incessantemente ostentando a aparência de puros e escolhidos; de se sentirem melhores que os outros.
Diante do avanço dos púlpitos sobre a praça pública, da doutrinação sobre o diálogo, é bom sempre lembrar que a liberdade pressupõe respeitar e ouvir o diferente. E democracia só existe com liberdade. Não é possível sustentar uma democracia sobre pessoas que se acham donas da verdade. Só ditaduras sobrevivem assim.
Satan não faria um trabalho melhor do que o que os extremistas religiosos estão fazendo para destruir a América.

*Tradução livre das frases: “Satan is attacking the great institutions of America, using those great vices of pride, vanity and sensuality (…) (por incrível que pareça, continua) e “Satan has his sights on the United States of America”.

O Tucano e a Isca

José Serra admitiu a pré-candidatura (pré é só para dar a impressão de que existe democracia interna no PSDB):
"Estou sendo candidato para governar a cidade até quando o mandato durar, até 2016. Sei que essa questão vai ser posta, principalmente pelos adversários, mas vou cumprir os quatros anos, e isso é mais do que uma promessa - garantiu ele.
Mordeu a isca. Até agora o plano limpa-caminho do Príncipe Herdeiro está dando certo.
Agora é ver se os paulistanos mordem também, mesmo depois do abandono dos cargos de prefeito e governador em nome da idéia fixa presidencial.